O pai

Por: domingo, agosto 14, 2016 0

guarda-chuva

 

Ele viu um guarda-chuva à venda por dez reais e não hesitou em comprá-lo. Com a mão esquerda, segurava a criança; com a mão direita dava o dinheiro para o vendedor. Saiu debaixo de toda aquela água que não parava de cair do céu, na sarjeta de quem se acostumou a caminhar encharcado na vida, desconfortável dentro da própria roupa no corpo. A chuva molhava a roupa do bebê no colo, tão pequeno protegido pela jaqueta do pai.

Seguia em silêncio sem reclamar, conformado com a necessidade de cruzar a grande cidade, absorto na ideia de levar o bebê  de volta para casa. Carregava-o no braço com a leveza de uma pena, como se não fosse pesado nem fardo, só desejando ter asa para chegar mais rápido. Quando a tempestade piorou, escondeu-se debaixo de um teto e aguardou por alguns minutos. Assistiu aos carros passarem, o lixo e o esgoto.

Como continuaria a andar se tudo se tornava empecilho?

O guarda-chuva tão barato era também muito leve e começou a se desprender da mão do dono para se prender na ventania. De repente voou alto, mas não sozinho. Levou consigo o pai e o filho pelos arredores da cidade, atravessando prédios e viadutos, com a mesma velocidade e força com que o vento cortava árvores pela metade. Na cercania de um bairro isolado, o guarda-chuva desceu e estacionou em frente a um sobrado velho. O pai abriu o portão de ferro, subiu as escadas, deu um banho quente no bebê e o pôs para dormir.

Deixou o guarda-chuva atrás da porta, com a normalidade de um pai cansado que não reconheceu a anormalidade de um dia qualquer.

  

Imagem: The Flying Umbrellas, by Patrick Desmet Magritte inspiration

guarda-chuva

  Ele viu um guarda-chuva à venda por dez reais e não hesitou em comprá-lo. Com a mão esquerda, segurava a criança; com a mão direita dava o dinheiro para o vendedor. Saiu debaixo de toda aquela água que não parava de cair do céu, na sarjeta de quem se acostumou a caminhar encharcado na Continue Reading

Mendiga

Por: sábado, agosto 6, 2016 0

mendiga final2

 

O meu conto “Mendiga”, distribuído na feira do Livro de Brasília, está disponível na Amazon, para download gratuito. A promoção é até o dia 8 de agosto.

 “E foi por se transformar em pedra no caminho de muita gente naquele local que ela parou e se sentou no chão com as pernas cruzadas ao lado do carrinho, e ficou imóvel por muito tempo. A camisa  azul com mangas curtas mostrava os frágeis ossos dos braços sujos, e a calça de malha cinza se misturava com o chão da praça, como fórmula química de dois componentes iguais”.

Quer ler todo o conto? Então baixe AQUI!

mendiga final2

  O meu conto “Mendiga”, distribuído na feira do Livro de Brasília, está disponível na Amazon, para download gratuito. A promoção é até o dia 8 de agosto.  “E foi por se transformar em pedra no caminho de muita gente naquele local que ela parou e se sentou no chão com as pernas cruzadas ao Continue Reading

32ª Feira do livro de Brasília

Por: sexta-feira, julho 15, 2016 0

Feira do livro 2

 

Junto à Feira do Livro de Brasília, que acontece de 16 a 24 de julho no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, também vai acontecer o I Encontro Nacional dos Blogueiros literários! E para aqueles que se interessam pela blogosfera literária, segue o cronograma do Encontro:

 

1o dia (16 – 07) – Sábado

13h00 – Cadastramento físico dos blogueiros – Auditório Águas Claras

  • Primeiro contato dos blogueiros com a Feira.
  • Fechado ao público.

 

14h00 – Abertura do Encontro de Blogueiros – Auditório Águas Claras

  • As boas-vindas da organização aos blogueiros e público
  • Aberto ao público.
  • O que é um blog literário?
  • Quais as modalidades?

 

14h30 – BookTubers – A experiência do blog e Canal Nuvem Literária – Auditório Águas Claras

  • Apresentação da blogueira Juliana Cirqueira.
  • Aberto ao público.
  • Mediação: Luciano Vellasco, do blog Academia Literária DF

 

15h30 – Intervalo de 30 minutos.

 

16h00 – Bate-Papo e coletiva de imprensa com Lorena Reginato – Auditório Águas Claras

  • Lorena vai falar um pouco sobre sua vida e sobre seu livro “Sonhos de Lorena”

 

17h00 – Sessão de autógrafos do livro “Sonho de Lorena” – Auditório Águas Claras

 

19h00 – Abertura oficial da 32a Feira do Livro de Brasília – Auditório Águas Claras

 

 

2o dia (17-07)– Domingo

 

14h00 – Ação desapego – Auditório Águas Claras

  • Momento de socialização. Você tem marcadores ou livros parados em casa? Que tal uma troca? Traga seus marcadores e livros!
  • Aberto ao público.

 

14h30 – Grande debate de blogueiros literários – Auditório Águas Claras

  • Juliana Cirqueira (ES – Nuvem Literária), Jéssica Rodrigues (DF – Leitora Sempre) e Raphaela Barros (DF – Equalize da Leitura) subirão ao palco para discutir temas como:

- A influência dos blogs no mercado editorial;

- Críticas: fazendo e usando a seu favor;

- Guerra Civil: Escritores x Blogueiros;

- O papel do blogueiro nos eventos literários;

  • Aberto ao público
  • Mediação: Luciano Vellasco (DF – Academia Literária DF)

 

15h50 – Intervalo de 10 minutos

 

16h00 – Saindo da Caixinha: palestra “O mito do herói, personagens e arquétipos” com Melissa Andrade (Nova Acrópole – DF) – Café Literário

  • Inscrições deverão ser feitas online (divulgaremos onde em breve);
  • Vagas Limitadas;

 

17h00 – Parcerias literárias: O relacionamento entre o blogueiro e o autor – Café Literário

  • Presença do autor Maurício Gomyde
  • Aberto ao público
  • Mediação: Luciano Vellasco, do blog Academia Literária DF

 

18h00 – Encerramento

 

Feira do livro 2

  Junto à Feira do Livro de Brasília, que acontece de 16 a 24 de julho no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, também vai acontecer o I Encontro Nacional dos Blogueiros literários! E para aqueles que se interessam pela blogosfera literária, segue o cronograma do Encontro:   1o dia (16 – 07) – Sábado 13h00 – Cadastramento Continue Reading

Zoomorfismo

Por: sexta-feira, julho 8, 2016 0

sofia 30004

 

A mãe vivia dizendo para ela não olhar as pessoas daquele jeito descarado-sem-piscar, É falta de educação, o que vão pensar de você? Mas Sofia não mudava. Arregalava os olhos toda vez que  se sentia vulnerável e insegura quando entrava num lugar desconhecido, ou quando um lugar desconhecido surgia dentro dela, forçando-a a se conhecer novamente. O pescoço também se enrijecia e parecia um torcicolo proposital de gente metida e inflexível, mas. Era apenas a imobilidade causada pelo medo.

Desculpa. A palavra tão certa e direta para quem não conseguia ser outra coisa, a não ser si mesma, feita de matéria ora pulsante demais, ora amorfa demais. Pedia desculpas pelos olhos curiosos, do tamanho das milhares de dúvidas que existiam dentro dela, Por que viver assim, tão na ponta do galho ou em cima do cimento estreito do muro, e se sentir confortável apenas quando se está dentro de um buraco cavado na terra?

Escutava mínimos ruídos a uma longa distância. Audição apurada para correr quando ainda houvesse tempo de se esconder ou de se preparar para quem sabe o quê.  Por isso, tinha insônia e não conseguia dormir enquanto não raiasse o sol, para se certificar de que não houvesse escuridão ou perigo. Se ela tinha olhos atentos, outros conseguiam rastejar e dar o bote silenciosamente. Como predadores.

Sofia-coruja cresceu tão rápido que sua mãe só percebeu quando viu pela primeira vez olhos pequenos na filha. Encolhidos e sem brilho. Não era mais uma menina insegura nem medrosa porque No mundo, não cabem imaturos, Sofia explicou. E seguiu assim até envelhecer, com olhar miúdo e pouco curioso de gente que não tem defeitos.

 

sofia 30004

  A mãe vivia dizendo para ela não olhar as pessoas daquele jeito descarado-sem-piscar, É falta de educação, o que vão pensar de você? Mas Sofia não mudava. Arregalava os olhos toda vez que  se sentia vulnerável e insegura quando entrava num lugar desconhecido, ou quando um lugar desconhecido surgia dentro dela, forçando-a a se Continue Reading

Mendiga

Por: quinta-feira, junho 23, 2016 0

lobo

 

Brasília parecia um labirinto sem saída, com gramados extensos e tão confusos como sua memória. Há quantos dias estava perdida procurando alguma porta mágica que lhe transportasse para as lembranças reais? Virou-se para o lobo-guará que ela carregava para todo lado e perguntou se ele estava com sede, e depois disse que compraria água para ambos porque andar debaixo do sol quente não estava sendo fácil para ninguém.

Subia o Eixo Monumental, ao lado dos carros que passavam com os para-brisas ligados. Uma garoa começava, bem fina mas constante. Ela jogou o rosto para trás, abriu a boca e foi sentindo a chuva que caía na sua língua devagar. Quando o sol que não havia se escondido brilhou mais forte, viu os raios refletidos nas gotas de chuva e um arco-íris brilhando em seus lábios. Está vendo isto, lobo? Este arco-íris não é um espetáculo?

À noite, debaixo céu do cerrado, fechou os olhos e dormiu como mendiga. Sonhou que flutuava sobre a cidade, observando os prédios, as janelas acesas e o reflexo da lua sobre o lago Paranoá. Sonhou que flores cresciam e se amontoavam na cabeça. Com os braços estendidos, voava entre  ipês e flamboyants, e depois aterrissava bem em cima da torre que tinha visto naquela manhã. Era ave num sonho, um pássaro raro de penas negras e esverdeadas.

 

* Esta é uma adaptação do conto “Mendiga”, disponível da Amazon. Para terminar de ler o conto,  clique AQUI!

 

Imagem: Marta Olowska

lobo

  Brasília parecia um labirinto sem saída, com gramados extensos e tão confusos como sua memória. Há quantos dias estava perdida procurando alguma porta mágica que lhe transportasse para as lembranças reais? Virou-se para o lobo-guará que ela carregava para todo lado e perguntou se ele estava com sede, e depois disse que compraria água Continue Reading

Passeio literário – Real Gabinete Portuguez de Leitura

Por: sexta-feira, junho 10, 2016 0

Muita gente vai ao Rio de Janeiro para conhecer as praias de Ipanema e Leblon, mas bem no centro da cidade também há uma beleza das grandes para ser contemplada: o Real Gabinete Portuguez de Literatura. Vale muito a pena a visita, pela surpreendente visão e acesso a obras raríssimas!

real gabinete

Real Gabinete Portuguez de Literatura Foto: Edu Mendes

Sua importância histórica está no fato de que as cinco primeiras sessões da Academia Brasileira de Letras (ABL) foram nele realizadas, com a presença de seu presidente, Machado de Assis. Grandes escritores da época como Olavo Bilac costumavam fazer leituras na biblioteca.

Além disso, o Real Gabinete Portuguez foi construído em estilo neomanuelino, e inaugurado pela Princesa Isabel em 1887. Hoje guarda cerca de 350.000 volumes de obras raras. Seguindo o exemplo dos “gabinetes de leitura” de raiz portuguesa e ainda na segunda metade do século XIX, surgiram, impulsionados pela maçonaria e pela república positivista, em várias cidades do interior do Estado de São Paulo, instituições semelhantes que também eram denominadas “gabinetes de leitura” e que foram transformadas depois em bibliotecas municipais.

real gabinete 2

Real Gabinete Portuguez de Literatura – Claraboia e Lustre

Entre as obras raras do Real Gabinete, está um exemplar da edição princeps de “Os lusíadas”, de 1572. Também possui em seu espólio o manuscrito do Amor de Perdição, obra do escritor português Camilo Castelo Branco.

O Real Gabinete Português de Leitura fica na Rua Luis de Camões, número 30, no Centro do Rio de Janeiro.

Para provar que estive aqui! :)

 

Leia mais:

http://www.realgabinete.com.br/

real gabinete

Muita gente vai ao Rio de Janeiro para conhecer as praias de Ipanema e Leblon, mas bem no centro da cidade também há uma beleza das grandes para ser contemplada: o Real Gabinete Portuguez de Literatura. Vale muito a pena a visita, pela surpreendente visão e acesso a obras raríssimas! Sua importância histórica está no Continue Reading

A cor púrpura

Por: sexta-feira, junho 3, 2016 0

A cor purpura

Romance

Alice Walker

Editora José Olympio

10ª edição

2016

“A cor púrpura” é uma grande lição sobre auto-estima, liberdade e sororidade.

A história se passa na cidade de Geórgia, Estados Unidos, no início do século passado, e narra a vida de Celie, uma jovem negra, tímida e religiosa, de família muito pobre. Aos catorze anos, após ser violentada pelo pai, casa-se com “Sinhô” por imposição da família. Triste por ter que abandonar especialmente sua irmã Nettie, Celie se muda para a casa de seu marido, onde se torna mais escrava do que esposa.

O marido é violento e agride Celie com frequência. No entanto, ela segue resiliente, sem reclamar, como se a violência não despertasse nela nenhuma indignação, como se tivesse se acostumado à rotina de tristeza e de intermináveis obrigações domésticas. Mas o leitor sim, este é capaz de se revoltar em vários momentos em que Celie é humilhada e, invariavelmente, torce para que chegue logo o instante em que ela também se revolte e abandone a vida deprimente que leva.

Para diminuir a tristeza, Celie escreve cartas para Deus e para sua irmã Nettie, fazendo reflexões profundas sobre sua existência, de forma simples e genuína.

“Bom, tem vez que Sinhô_____me bate muito  mesmo. Eu tenho que me queixar ao Criador. Mas ele é meu marido. Eu deixo pra lá. Essa vida logo acaba, eu falo. O céu dura para sempre.”

A história começa a mudar de rumo quando “Sinhô” leva para casa a sua amante, Shug Avery, com a qual Celie constrói uma surpreendente amizade. Com Avery, Celie descobre sua auto-estima, transformando-se pouco a pouco numa mulher mais confiante para se ver livre das mãos do marido. Também com Sofia, nora do “Sinhô”, Celie aprende a ser mais corajosa, a refletir sobre a desobediência e o seu papel de esposa. A liberdade física e psicológica surge como consequência desta transformação,  possibilitando à Celie a escolha do seu próprio caminho.

filme a_cor_purpura

Filme “A cor púrpura”, dirigido por Steven Spielberg

A autora mostra os vários ângulos da opressão feita pelo racismo, colonialismo, religião e machismo. Por outro lado, Alice Walker  destaca a  sororidade (fraternidade entre as mulheres) como algo curador de várias mazelas sociais.

É um livro libertador. É um livro para se ter na cabeceira para sempre.

“Eu acho que Deus deve ficar fora de si se você passa pela cor púrpura num campo qualquer e nem repara.”

 

cp 2

Romance Alice Walker Editora José Olympio 10ª edição 2016 “A cor púrpura” é uma grande lição sobre auto-estima, liberdade e sororidade. A história se passa na cidade de Geórgia, Estados Unidos, no início do século passado, e narra a vida de Celie, uma jovem negra, tímida e religiosa, de família muito pobre. Aos catorze anos, Continue Reading

A única sobrevivente

Por: quinta-feira, maio 19, 2016 1

formiga

 

Havia centenas de pegadas pequenas e enfileiradas, em direção à saída da cidade. Aqueles que sobreviveram (e não pareciam poucos) fugiram de forma organizada. Outros deixaram apenas seus esqueletos. Era surpreendente como até em momentos de aflição, a cidade fazia filas, mantinha a ordem e não quebrava a hierarquia. Alguém aí? Eu repetia a pergunta, enquanto apenas o vento me respondia com sua rajada impiedosa.

Naquele dia, a solidão parecia certa para uma operária tão nova como eu, nascida e criada com restos e fungos, paralisada numa casta imutável com um único destino: trabalhar e servir. Eram tantas ordens a que eu me submetia que, frente ao silêncio, não sabia o que fazer. Pela primeira vez, podia decidir o próximo passo a dar, mas era difícil caminhar enquanto a coragem ainda não existia dentro de mim.

Enquanto eu descansava sobre um pedregulho, o céu nublado avisava que logo a chuva cairia. Era preciso encontrar algum túnel, mas toda a cidade estava coberta de terra. As folhas começaram a cair uma a uma, e eu fugia de todas elas, mesmo com duas pernas quebradas e imobilizadas. Enquanto corria, pisava sobre mortos, e algum deles poderia ser a rainha. Ou ela havia sobrevivido?

Se eu achava que a sorte sorria para mim, salvando-me de um desastre, logo constatei que o azar já mostrava os seus sinais. Do alto, vi uma gota de chuva caindo em minha direção, como foguete lançado para destruir um asteroide, e me vi dentro de uma bolha transparente, rolando pelo chão, cada vez mais rápido. Sem conseguir respirar e prestes a morrer afogada, eu tentava escapar e pedia socorro. Não havia ninguém para me salvar. E se houvesse, alguém salvaria uma operária?

 Eu era apenas uma formiga.

 

Foto: autor desconhecido, Pinterest

 

formiga

  Havia centenas de pegadas pequenas e enfileiradas, em direção à saída da cidade. Aqueles que sobreviveram (e não pareciam poucos) fugiram de forma organizada. Outros deixaram apenas seus esqueletos. Era surpreendente como até em momentos de aflição, a cidade fazia filas, mantinha a ordem e não quebrava a hierarquia. Alguém aí? Eu repetia a pergunta, Continue Reading