Lobo de tinta

Por: sexta-feira, dezembro 16, 2016 0

lobo2

 

Não era só minha imaginação que fazia a pintura do quadro se mexer, como tela de cinema em escala menor e com cheiro de relva molhada. A imagem de tinta, feita para ser estática, tinha folhagens que voavam com o vento que vinha do morro pintado no fundo. E o lobo que olhava para  o lado direito começou a me encarar como se fosse pular da tela e me agarrar.

Dei dois passos para trás e me segurei numa coluna de gesso. Isto foi tudo o que consegui fazer enquanto observava a paisagem pintada se desmanchar com uma forte tempestade que caía apenas dentro do quadro. Respingou em mim gotas de água tão reais como as paredes brancas do quarto daquele hotel barato de rodovia, próximo a Belo Horizonte.

Nem vi que o leite se derramava do copo na minha mão e caía sobre o carpete verde-musgo. Que nem o tempo. Não sabia por quantas horas eu tinha dirigido na estrada, talvez oito, talvez dez. O tempo escoou feito leite ou gasolina do carro, sem que eu percebesse.

O lobo finalmente pulou do quadro, balançou os pelos molhados e veio deitar ao meu lado, sobre os lençóis puídos. Não dormi enquanto o animal não fechou seus olhos e descansou. Foi a primeira e única vez que dormi na mesma cama com um lobo, e acordei com o corpo doído em meio à relva. 

 

Imagem: P. Baikal

lobo2

  Não era só minha imaginação que fazia a pintura do quadro se mexer, como tela de cinema em escala menor e com cheiro de relva molhada. A imagem de tinta, feita para ser estática, tinha folhagens que voavam com o vento que vinha do morro pintado no fundo. E o lobo que olhava para  o Continue Reading

Três vidas

Por: quinta-feira, novembro 24, 2016 0

tres-vidas

 

Ela queria tanto estar em vários lugares ao mesmo tempo que sua vontade a transformou em três. Maria Elisa se tornou Maria, Elis e Isa. No princípio, foi difícil se ver triplicada e dividir as funções entre suas réplicas, mas depois ficou feliz e achou que tinha resolvido a sua falta de tempo.

Maria ficou por conta da família, Elis do trabalho, Isa do resto. No mesmo instante, Maria Elisa estava em seu escritório de advocacia, cuidando das crianças e fazendo compras de supermercado. Ninguém mais reclamava da sua ausência ou falta de atenção. Sobravam horas para dormir o quanto quisesse, ir ao cinema e até ficar de frente ao espelho olhando as próprias rugas.

Ao completar oitenta anos, Maria Elisa ficou muito doente, prestes a morrer. Teve que lidar com três mortes causadas por problemas no coração. Do outro lado da vida, depois de pagar os pecados triplamente, pediu para reencarnar três vezes ao mesmo tempo e jurou não reclamar.

Renasceu como uma escritora que conseguia escrever trilogias simultaneamente, em primeira pessoa. Os três narradores, egos da própria escritora, tinham vidas completamente diferentes e se complementavamNão reclamou e considerou seu desejo atendido.

 

 Imagem: P. Baikal

tres-vidas

  Ela queria tanto estar em vários lugares ao mesmo tempo que sua vontade a transformou em três. Maria Elisa se tornou Maria, Elis e Isa. No princípio, foi difícil se ver triplicada e dividir as funções entre suas réplicas, mas depois ficou feliz e achou que tinha resolvido a sua falta de tempo. Maria Continue Reading

Visita inesperada

Por: sexta-feira, novembro 11, 2016 0

et

Três dias em Petrópolis seriam o suficiente para respirar um pouco mais de ar puro e descansar. Na terça-feira, 8 de novembro, passei o dia na Le Siramat, uma pousada no alto  da serra, rodeada por árvores e com vista panorâmica para os morros mais distantes. A quarta amanheceu com sol, perfeito para dar uma volta no centro da cidade e visitar o Quitandinha e o Orquidário. Enquanto almoçava uma massa italiana no Luigi, soube pela televisão da vitória de Trump, das explosões na Síria e dos novos casos de corrupção no Brasil.

À noite, aproveitei a varanda da pousada para tomar um vinho e olhar a paisagem. Às três da manhã, todos os hóspedes já estavam dormindo e parecia que apenas eu não tinha me entregado ao sono. Olhava para Marte piscando no alto e imaginava quantos anos ainda seriam necessários para que os terráqueos conhecessem os marcianos.

Lá longe, entre os morros, vi uma estrela cadente. Duas, três, quatro. Começaram a surgir tantas luzes que comecei a tirar fotos com a câmera do celular. Elas se aproximaram da pousada ou a pousada se aproximou delas, não sei ao certo. Em poucos segundos, eu estava lá, entre os morros e as luzes girando em círculo, descendo aos poucos na mata.

Assustada, quebrei a taça de vinho na mão. Alguém se aproximou, com olhos grandes e pele esverdeada, tão clichê que achei que fosse um homem fantasiado. Quando ele falou sem abrir a boca e se comunicou comigo apenas pelo pensamento, comecei a acreditar no que via. Falou que era vizinho de uma galáxia próxima e que seu planeta estava preocupado. Achava, pelas notícias que captou a anos luz daqui, que a Terra estava de cabeça para baixo e que toda a humanidade havia se extinguido. Veio checar. Falei que era tudo verdade. O planeta estava de cabeça para baixo. Pedi ajuda e carona. Ele disse que não podia dar carona porque não era do tipo que fazia abdução.

Depois disso, só me lembro de amanhecer no dia seguinte com ressaca. No check-out, a nova empregada me advertiu dos perigos de quebrar uma taça de vinho na mão. Só me lembrei de que não havia comentado com ninguém sobre o incidente da taça quando eu já estava na rodovia, a caminho do Rio de Janeiro.

 

 Imagem: P. Baikal

et-2

Três dias em Petrópolis seriam o suficiente para respirar um pouco mais de ar puro e descansar. Na terça-feira, 8 de novembro, passei o dia na Le Siramat, uma pousada no alto  da serra, rodeada por árvores e com vista panorâmica para os morros mais distantes. A quarta amanheceu com sol, perfeito para dar uma volta Continue Reading

Ovo azul-turquesa

Por: sexta-feira, novembro 4, 2016 0

azul-turquesa

 

Eu batia na porta antes de entrar naquela construção abandonada, com tijolos manchados de chuva que caía do teto inacabado. Três cômodos era tudo o que a casa tinha. E um criado-mudo, único morador, sozinho, imóvel e calado. Mas o que era para ser vazio, um espaço sem razão, tinha um ninho grande no meio da sala com um ovo azul-turquesa, também grande,  protegido por uma ave rara e gigantesca.

Na primeira vez que passei pela porta e escutei um canto mateiro vindo de dentro da casa, parei e ouvi, achando que era gente treinando flauta para um concerto. Mas pela fechadura eu vi as asas grandes de penas brancas, as plumas na cabeça, o bico fino, o corpo longo e esguio como uma garça, mas muito maior, observando o ovo no chão. Havia um cheiro de planta molhada, de relva, de natureza morando, tomando conta do espaço e fazendo de conta que sempre esteve ali.

Entrei porque. Não sei por que entrei, de tão hipnotizada que estava pela visão. Observei a ave cantando em direção ao teto esburacado. O ovo estava trincado e, quanto mais agudo ela cantava, mais ele se quebrava. Apenas eu escutava o canto? Cinco dias se passaram assim sem eu comentar a descoberta com alguém.

Na manhã que encontrei cascas azul-turquesa e penas brancas voando com o vento pela rua, vi a ave de longe, levando em suas garras a casa em que morava, toda reconstruída sem buracos, manchas ou vãos. No lugar da casa, só restou o criado-mudo. Sentei-me nele e fiquei me perguntando se era possível uma ave chocar a própria casa com canto e levar para qualquer canto o lugar que acha que é seu.

  

Imagem: P. Baikal

 

 

ovo-8

  Eu batia na porta antes de entrar naquela construção abandonada, com tijolos manchados de chuva que caía do teto inacabado. Três cômodos era tudo o que a casa tinha. E um criado-mudo, único morador, sozinho, imóvel e calado. Mas o que era para ser vazio, um espaço sem razão, tinha um ninho grande no Continue Reading

Cafeomancia

Por: quinta-feira, setembro 22, 2016 0

cafeomancia-x

Decidi consultar uma leitora de borra de café numa sala comercial da Asa Norte por acreditar que seres inanimados podem, de alguma forma muito estranha às leis físicas conhecidas, revelar um pouco sobre as pessoas. E antes que alguém diga que oráculos como uma xícara de café, búzios ou cartas de tarô são apenas tentativas vazias de enxergar o futuro, que são pura ilusão de gente fantasiosa ou ignorante, preciso contar a minha história. Prestem atenção aos detalhes.

Foi no último sábado pela manhã, dia 17 de setembro, que entrei num prédio de três andares, numa quadra comum daqui de Brasília por onde gatos ciscam o chão e ladeiam a gente. No quinto ou sexto degrau da escada do prédio, um cego de olhos leitosos descia lentamente, com uma mão no corrimão e a outra numa bengala. Quando sentiu minha aproximação, ele me disse (como se soubesse para onde eu ia): Beba devagar porque o café é sempre quente e pode queimar a sua língua. Agradeci pela dica sem saber ao certo se ele falava comigo, ao mesmo tempo em que tentei me equilibrar depois de um gato passar por debaixo das minhas pernas e parar exatamente diante da sala comercial nº 305.

Assim que toquei a campainha, uma mulher de sessenta e poucos anos, cabelos brancos até a cintura, olhos cinzas e sotaque de estrangeira abriu a porta, disse Entrrre, e depois me encaminhou para uma sala de espera à meia-luz. A mulher me deu uma xícara branca de porcelana e me falou para beber devagar, de gole em gole, até restar apenas a borra de café no fundo da xícara. Segui as orientações, enquanto olhava para os livros esotéricos numa estante e para uma bruxinha de pano pendurada na janela de cobogós.

Quando a borra apareceu, ela examinou o fundo da xícara com atenção, sob a luz de uma luminária, e começou a decifrar o meu passado, entre imagens de âncoras, flores e números desenhados ao acaso pelo café. Falou do meu presente, adivinhando onde moro, com quem vivo e qual religião sigo. Sobre o futuro, previu acontecimentos em até quatro meses. Você quer perrrguntarr mais alguma coisa?

Paguei a leitura e depois pedi um copo d’água. Enquanto tomei um gole, de costas para ela, escutei um miado fino e sôfrego. Ao me virar, vi apenas um gato de olhos cinzas pulando sobre a mesa e lambendo a borra que restou na xícara. Aguardei por alguns minutos a mulher reaparecer, mas em vez disso, entrou pela porta da sala o cego de olhos leitosos e me perguntou Como estava o café? Respondi que quase tinha queimado a língua e depois quis saber da mulher que havia desaparecido. Ela está aí na sua frente, não está? Eu só disse, desconfiada, Diga a ela que volto qualquer dia desses.

Quero voltar no próximo sábado só para seguir os gatos que circulam por aquele prédio e checar se, estranhamente, algum deles some no exato instante em que uma mulher de cabelos longos aparece para abrir a porta da sala comercial nº 305oferecer uma xícara de café e depois sumir sem deixar vestígios. 

cafeomancia-x

Decidi consultar uma leitora de borra de café numa sala comercial da Asa Norte por acreditar que seres inanimados podem, de alguma forma muito estranha às leis físicas conhecidas, revelar um pouco sobre as pessoas. E antes que alguém diga que oráculos como uma xícara de café, búzios ou cartas de tarô são apenas tentativas Continue Reading

Casa de Pablo Neruda – La Sebastiana

Por: quinta-feira, setembro 8, 2016 0
casa-de-pablo-neruda

La Sebastiana

É a casa mais surpreendente em que já entrei. Localizada em Valparaíso, a 112 quilômetros de Santigo, La Sebastiana encanta pela decoração criativa, por objetos inusitados de vários lugares do mundo e, principalmente, pela extraordinária vista para o Pacífico e para o porto da cidade. A casa era de um arquiteto espanhol chamado Sebastian e daí a origem do  nome “La Sebastiana”.

A casa tem cinco andares e se localiza sobre um morro, o que faz você se sentir como se estivesse no alto de um farol. Tem grande influência marítima (diversos quadros com imagens de barcos em vários cômodos), porque Pablo Neruda era apaixonado, de verdade, por tudo o que vinha do mar.

Há poesia espalhada por toda a casa, “Pablo Neruda construiu a La Sebastiana como construiu poemas”, disse o guia. Os objetos têm nome (um descanso para os pés se chama “nuvem”). Há passagens secretas, desenhos de mariposas penduradas nas paredes, enfeites que parecem orbitar pela casa (no teto da sala, está pendurada uma bolha transparente com um pássaro falso dentro dela).

Detalhe do descanso para os pés, chamado "nuvem"

Detalhe do descanso para os pés, chamado “nuvem”

 

lasebastiana5

Um dos bares da casa

 

lasebastiana6

Um cavalo de carrossel no meio da sala (?)

 

Há uma cafeteria e uma livraria onde você poderá comprar livros do poeta. Eu comprei esse aqui:

14276384_1681958005459599_2111242269_n

Se você vai ao Chile, vale a pena conhecer La Sebastiana! 

Boa viagem!

Mais informações: Fundação Neruda 

Um pouco sobre Pablo Neruda:

pablo-neruda

Foi um poeta chileno que recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1971. Nasceu na cidade de Parral, no Chile, no dia 12 de julho de 1904.  Era filho de de um operário ferroviário e de uma professora. Ficou órfão de mãe ainda bebê. Seu nome verdadeiro era Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, mas ainda na adolescência, adotou o nome de Pablo Neruda, inspirado no escritor tcheco Jan Neruda. Além de escritor, seguiu a carreira de cônsul e, mais tarde, senador da República. Neruda faleceu em Santiago, capital do Chile, no dia 23 de setembro de 1973. Depois de sua morte, foram publicadas suas memórias com o título “Confesso Que Vivi”. (1904-1973)

Fotos: Fundação Neruda

casa-de-pablo-neruda

É a casa mais surpreendente em que já entrei. Localizada em Valparaíso, a 112 quilômetros de Santigo, La Sebastiana encanta pela decoração criativa, por objetos inusitados de vários lugares do mundo e, principalmente, pela extraordinária vista para o Pacífico e para o porto da cidade. A casa era de um arquiteto espanhol chamado Sebastian e daí a Continue Reading

24ª Bienal Internacional do livro de São Paulo

Por: quinta-feira, agosto 25, 2016 0

bienal-do-livro-2016-sao-paulo

 

Olá leitores! Preparados para a 24ª Bienal Internacional do livro de São Paulo que já começa amanhã?

O evento será realizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), com atrações multiculturais voltadas para celebrar a leitura. O evento ocorre entre 26 de agosto e 4 de setembro de 2016, no Anhembi, e reunirá as principais editoras, livrarias e distribuidoras, levando ao público atrações exclusivas, com presença de autores nacionais e internacionais, lançamentos de livros, tardes de autógrafos, oficinas, brincadeiras e debates.

Os visitantes podem fazer a compra antecipada pelo site http://www.bienaldolivrosp.com.br) ou nos pontos físicos da Tickets For Fun ( http://premier.ticketsforfun.com.br/shows/show.aspx?sh=pdv ).

 Eu acompanharei a feira de pertinho, porque vou estar no estande nº 69, da Editora Ler, junto com outros autores nacionais, no período de 02 a 04 de setembro. 

Abraços,

Patrícia Baikal

bienal-4

  Olá leitores! Preparados para a 24ª Bienal Internacional do livro de São Paulo que já começa amanhã? O evento será realizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), com atrações multiculturais voltadas para celebrar a leitura. O evento ocorre entre 26 de agosto e 4 de setembro de 2016, no Anhembi, e reunirá as principais editoras, livrarias Continue Reading

O pai

Por: domingo, agosto 14, 2016 0

guarda-chuva

 

Ele viu um guarda-chuva à venda por dez reais e não hesitou em comprá-lo. Com a mão esquerda, segurava a criança; com a mão direita dava o dinheiro para o vendedor. Saiu debaixo de toda aquela água que não parava de cair do céu, na sarjeta de quem se acostumou a caminhar encharcado na vida, desconfortável dentro da própria roupa no corpo. A chuva molhava a roupa do bebê no colo, tão pequeno protegido pela jaqueta do pai.

Seguia em silêncio sem reclamar, conformado com a necessidade de cruzar a grande cidade, absorto na ideia de levar o bebê  de volta para casa. Carregava-o no braço com a leveza de uma pena, como se não fosse pesado nem fardo, só desejando ter asa para chegar mais rápido. Quando a tempestade piorou, escondeu-se debaixo de um teto e aguardou por alguns minutos. Assistiu aos carros passarem, o lixo e o esgoto.

Como continuaria a andar se tudo se tornava empecilho?

O guarda-chuva tão barato era também muito leve e começou a se desprender da mão do dono para se prender na ventania. De repente voou alto, mas não sozinho. Levou consigo o pai e o filho pelos arredores da cidade, atravessando prédios e viadutos, com a mesma velocidade e força com que o vento cortava árvores pela metade. Na cercania de um bairro isolado, o guarda-chuva desceu e estacionou em frente a um sobrado velho. O pai abriu o portão de ferro, subiu as escadas, deu um banho quente no bebê e o pôs para dormir.

Deixou o guarda-chuva atrás da porta, com a normalidade de um pai cansado que não reconheceu a anormalidade de um dia qualquer.

  

Imagem: The Flying Umbrellas, by Patrick Desmet Magritte inspiration

guarda-chuva

  Ele viu um guarda-chuva à venda por dez reais e não hesitou em comprá-lo. Com a mão esquerda, segurava a criança; com a mão direita dava o dinheiro para o vendedor. Saiu debaixo de toda aquela água que não parava de cair do céu, na sarjeta de quem se acostumou a caminhar encharcado na Continue Reading