A garçonete

Por: sexta-feira, março 7, 2014 2
 guarda-chuva
Hoje, ela passou por aqui. Foi trabalhar. Esperou no ponto de ônibus por quinze minutos, debaixo do guarda-chuva marrom. Daqui da janela, vejo tudo. A barra da calça dela está comprida demais e, de tão molhada, arrasta no chão. O sapato é preto de salto gasto. O cabelo pesado e escuro disfarça a sujeira de ontem, da cozinha, do óleo e do bar.

Quase sempre é ela quem me atende, oferecendo o cardápio. Aceita o lanche do dia? Café, suco de laranja e pão com mortadela. É claro que aceito, eu sempre aceito, todas as manhãs. Ela derrama o café na xícara e, depois, o suco no copo de plástico. É o meu ritual. 

Qualquer dia desses eu me declaro. Quer sair comigo esta noite? Você sabe meu nome? Eu sei o seu. Também sei onde mora, com quem sai, por onde anda. Poderia dizer tudo isto. E também contaria que seu último namorado não valia uma figa, uma unha do meu pé. Ela ficaria assustada, quando então eu diria Sim, ele te traía. No auge da minha ilusão doentia, neste momento, ela cairia nos meus braços e seríamos dois loucos sobre a mesa do bar.
— Com licença, o senhor aceita o lanche do dia?
— E qual é?
— Café, suco de laranja e pão com mortadela, por três reais e noventa centavos.
Ela me olhou por alguns instantes e depois virou as costas. Alguém a chamou na cozinha. Dezoito meses para ser notado e alguém a chama na cozinha. Não faz mal. Talvez ela tenha me reconhecido da rua ou da minha janela. Amanhã venho de novo. Amanhã é um novo prato do dia.

 

guarda-chuva

  Hoje, ela passou por aqui. Foi trabalhar. Esperou no ponto de ônibus por quinze minutos, debaixo do guarda-chuva marrom. Daqui da janela, vejo tudo. A barra da calça dela está comprida demais e, de tão molhada, arrasta no chão. O sapato é preto de salto gasto. O cabelo pesado e escuro disfarça a sujeira Continue Reading