Aneurisma

Por: domingo, abril 27, 2014 0
favela-night
Depois das oito horas da manhã, tudo está aberto, o comércio e as bocas dos defuntos estendidos nas ruas. O sábado é assim, uma ressaca dos tiroteios da madrugada. Saltar um morto é como brincar de amarelinha, uma brincadeira de criança, com direito a muitas balas.
 
Aqui, a paisagem é fosca; somente brilham as correntes de ouro dos traficantes. Eles estão em todos os lados, como os prantos das mães que perdem seus filhos para o mundo. Nessa semana, uma mãe desmaiou. O filho, que era dançarino, morreu numa troca de tiros. Hoje, havia repórteres em toda esquina, querendo saber quem conhecia o falecido.
 
“Eu brincava de amarelinha com ele, quando éramos crianças. Amarelinha de verdade”, falei. “E, por acaso, existe amarelinha de mentira?”, a jornalista me perguntou. “Mentira é pisar em morto como se fosse asfalto, dona”. Ela tirou uma foto do morro e,depois foi embora, pisando na calçada suja de sangue. 
Eu queria ter contado à repórter que meu pai tinha um aneurisma e sabia que, a qualquer momento, ele podia morrer. Morar aqui é como ter um aneurisma. 
favela-night

Depois das oito horas da manhã, tudo está aberto, o comércio e as bocas dos defuntos estendidos nas ruas. O sábado é assim, uma ressaca dos tiroteios da madrugada. Saltar um morto é como brincar de amarelinha, uma brincadeira de criança, com direito a muitas balas.   Aqui, a paisagem é fosca; somente brilham as Continue Reading

A chegada de Gabriel García Márquez no céu

Por: sábado, abril 19, 2014 0
uma-estrela
– Onde estou?
– Em Macondo.
– Macondo? Eu morri?
– Sim, senhor. Há dois dias.
– E quem é você?
– Kafka. Franz Kafka.
– Não é possível! Você está morto!
– Morto não. Metamorfoseado.
– Se estamos em Macondo, onde estão os Buendía?
– Virão para a festa.
– Haverá uma festa?
– Mas é claro! O céu festeja a sua chegada!
– Quer dizer que aqui posso encontrar meus personagens?
– Todos eles. E exatamente como os descreveu em seus livros.
– Mas isso é fantástico!
– E real!
– Kafka…
– Sim?
– Eu sabia que meus personagens eram reais em algum lugar do mundo…
 
 
 
 
 

 

uma-estrela

– Onde estou? – Em Macondo. – Macondo? Eu morri? – Sim, senhor. Há dois dias. – E quem é você? – Kafka. Franz Kafka. – Não é possível! Você está morto! – Morto não. Metamorfoseado. – Se estamos em Macondo, onde estão os Buendía? – Virão para a festa. – Haverá uma festa? – Continue Reading