Prêmio Literário Darcy Ribeiro 2014 – Modalidade conto – 3º lugar

Por: segunda-feira, maio 19, 2014 0
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Homem à venda
  Desde que ela foi embora, tudo se transformou em pó e sujeira. Somente as paredes parecem não ter mudado. Elas continuam brancas. Quando acordo, ainda sinto o cheiro dela, impregnado nos travesseiros e lençóis que nunca mais lavei. É difícil sair da cama e colocar meus pés no chão. É quase hercúleo o esforço de levantar-me para trabalhar. O trabalho é minha única distração.
 
  Aos poucos, consigo chegar ao banheiro e fazer a barba. Há dias que não faço, não tenho tempo. Meu tempo é quase todo gasto com uma rotina de pensamentos sem fim e sem propósito. Para que pensar na sua volta? Diariamente, treino palavras para dizer no exato momento em que ela aparecer à minha frente. Dedico-me a adivinhar sua roupa, seu batom, se mudou de perfume, se ainda é a mesma. Mas eu sei que não. Ela, com certeza, mudou.
 
  Talvez esteja com outro melhor que eu. Alguém que a ajude nas tarefas domésticas. Ela gostava de cozinhar. Enquanto o cozido de carne não ficava pronto, ela preparava a sobremesa. Quer bolo ou gelatina? Eu sempre escolhia o bolo com calda de laranja. A mesa era posta com cuidado, forrada com uma toalha xadrez. Ela podia ter deixado a toalha, pelo menos. Agora, faço minhas refeições em frente à televisão. Se não tem a toalha, não faço questão de usar a mesa.
 
  Não tivemos filhos, apesar de termos tentado. Na lua de mel, ela achou que estava grávida. Durante toda a viagem, esboçava um sorriso maroto, crente de que se fizera mãe. No terceiro mês de casamento, a barriga dela estava inchada. Era certo que teríamos um bebê. Até ganhamos um par de sapatinhos vermelhos. No quarto mês, o sonho acabou. O médico foi eloquente: era gravidez psicológica.
 
  O inferno começou nesses tempos. Ela não queria mais sair de casa, e tudo era motivo para chorar. Lembro-me de uma vez que ela não se controlou ao ver um comercial de uma boneca que falava. Nós brigamos. Lembro-me perfeitamente porque foi nossa primeira discussão. Não conversamos até a hora de dormir, quando então ela me abraçou e eu pedi desculpas. Me desculpa? Foi culpa minha, eu não devia ter chorado. A culpa não foi de ninguém…
 
  Na cama, não havia embate. Ela gostava de beijos lentos e longos. Ensinei a ela tudo sobre o amor. Fui o primeiro homem com quem ela se deitou. Seu pai não aceitava muito nosso namoro; ficava vigiando minhas mãos no sofá da sala dele. Alguns meses antes do nosso casamento, ele sofreu um derrame e morreu. A causa deve ter sido desgosto. Não quero minha filha casada com um vendedor de bugigangas, dizia.
 
  A festa foi simples, mas com muita comilança. Mandei matar uns cinco porcos. Teve pururuca até o dia amanhecer. Ela estava radiante, num vestido branco sem mangas, com um laçarote no meio da cintura. O que se passava na sua mente tão ingênua? Ela seria minha naquela noite. Quando a lua foi embora, fomos para o quarto de hotel que aluguei. No carro, desabotoei seu vestido e conheci cada linha do seu corpo febril. Fizemos ali mesmo, e dormimos no hotel.
 
  Alguma mulher nesse mundo é capaz de esquecer o primeiro homem? Se tiver problemas de memória, há justificativa. Se for mulher da vida, talvez. Mas não a minha, essa ainda há de se lembrar do meu suor! Ainda que esteja com outro amante, eu sempre serei o primeiro! Quando ela morrer e estiver enterrada, eu terei sido seu primeiro! Se envelhecer sozinha, na lástima do abandono, ela se lembrará de que eu fui o primeiro! Primeiro, primeiro!
 
  Ela sabia pouco de poesia. Eu ensinei. Não só de bugigangas eu vivia. Recitei Fernando Pessoa e Drummond. Ela adorava! Eu dizia a ela que, quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra, disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida! Ela ria. O poema das sete faces era o meu favorito. Hoje, não ligo para Drummond. Ele não entendia a vida, apenas mentia por palavras bonitas.
 
  Depois de fazer a barba, esquento o café. O pó acabou e não vai dar para comprar outro agora pela manhã. É melhor deixar para quando eu voltar. A vontade é de ficar na rua, montar a barraca e ficar por lá mesmo. Pilhas, relógios, rádios! Dona, não vai levar um relógio? Tudo na promoção! Vejo as mesmas pessoas passarem pela barraca todos os dias. Devem ter dó de mim. Coitado!
 
  Ontem, foi diferente: apareceu a dona da minha vida. Fiz esforço para me lembrar de todas as palavras que treinei. Você por aqui? Estou indo para a fábrica. Você nunca mais apareceu… Nem você. Sinto sua falta! Não diga isso. Está com outra pessoa? Não quero falar. Eu fui o seu primeiro, lembra? É claro. Diga que serei o último! Preciso seguir em frente. Eu tenho medo de nunca mais ser feliz. Enquanto tiver medo, não será feliz.
 
  Ela acelerou a caminhada e desceu para o metrô. Eu tinha que voltar para a barraca; havia clientes olhando os relógios. Quanto está o relógio? Eu não sabia dizer. Não sei, quanto quer pagar por ele? Quanto quer pagar por mim? Também estou na promoção! Vejam esse farrapo de homem na promoção! Estão vendo?
 
  Sentado na calçada, eu era um homem vendido. Ela sequer olhou nos meus olhos. Como pôde ser tão forte? Como esqueceu os sapatinhos vermelhos, o laçarote no vestido e o bolo com calda de laranja? Ela não conhecia o amor ou poesia, mas sempre fora entendida do medo. Nunca teve medo de nada. Nem do seu pai. Talvez ela estivesse certa, era hora de eu deixar de ser gauche e esquecer o anjo torto que amaldiçoou minha vida. Era hora de seguir em frente, sem medo de ser feliz.
 
 
 
 
 
 

 

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Homem à venda   Desde que ela foi embora, tudo se transformou em pó e sujeira. Somente as paredes parecem não ter mudado. Elas continuam brancas. Quando acordo, ainda sinto o cheiro dela, impregnado nos travesseiros e lençóis que nunca mais lavei. É difícil sair da cama e colocar meus pés no chão. É quase Continue Reading

A temperatura do tempo

Por: segunda-feira, maio 5, 2014 2
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Há lembranças que são como fogo e gelo no meu corpo.  
Quando criança, eu subia montanhas e me jogava de precipícios. Nunca me machucava. Havia monstros e todos se escondiam de mim. Os mais perigosos tinham vários pescoços e cabeças a rodopiar  eu somente os conhecia pelos livros. De repente, minhas asas se tornaram pesadas e não mais abraçavam as rajadas de ar. 
 
No dia mais frio, passei a sangrar.  
 
Comecei a ver de perto os monstros de vários pescoços e cabeças. Eles me pressionavam de muitas formas. Travei uma guerra. Alguns queriam dinheiro, outros se contentavam com falsos elogios, mas, mesmo assim, continuavam a cuspir fogo. A luta era constante. O que era mesmo que eu fazia para não me machucar nos precipícios? Não me recordava… Alguém me ajudou a relembrar e, juntos, multiplicamos nossas vidas. Eu me multipliquei. Tornei-me duas, depois, três. 
No dia mais quente, parei de sangrar. Parecia que todos cuspiam fogo ao redor. 
 
Hoje, sinto frio. Com tão pouca gordura no corpo, não é de se surpreender. Poucos me compreendem; é difícil envelhecer. Nem aqueles que são multiplicações de mim sabem como me sinto. Eles não deveriam saber o que se passa comigo? A vida mudou. Talvez, hoje, eu seja um monstro. Por isso, ninguém vem me visitar. Eles têm medo. Medo de que eu cuspa fogo e volte a voar. 
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Há lembranças que são como fogo e gelo no meu corpo.   Quando criança, eu subia montanhas e me jogava de precipícios. Nunca me machucava. Havia monstros e todos se escondiam de mim. Os mais perigosos tinham vários pescoços e cabeças a rodopiar – eu somente os conhecia pelos livros. De repente, minhas asas se tornaram pesadas e Continue Reading