Dureza e sensibilidade

Por: sexta-feira, agosto 22, 2014 0
pedraflor
Quando a dor crescia e arranhava dentro dos rins, ela não se mexia. Aquietava-se num canto, com os olhos embriagados de cansaço, que diminuíam de tamanho com a queda das pálpebras. As bochechas rosadas ganhavam a cor de pera amarela, fruta única esquecida há dias na fruteira.
 
Movimentos bruscos faziam as pedras mudarem de posição. Quatro esferas que se agitavam, moíam e filtravam. Perfeitos moinhos urológicos. A coluna se curvava quando elas batiam umas nas outras, como se tivessem vida suas duras camadas. Ela torcia os lábios e saía à procura de algum alívio. Era uma guerra entre a dureza e a sensibilidade.
 
Os filhos alternavam os dias de visita. Três mulheres e um homem. Raramente os quatro estavam juntos, exceto aos sábados, quando todos se reuniam. Mas há meses que isso não acontecia, que eles não se juntavam ao redor dela. Era uma época de muita correria.
 
Sem se dar conta do tempo que passou, ela acordou numa manhã de sábado e se deparou com seus quatro filhos na sala. Juntos. Olhou para eles e logo depois se trancou no banheiro. Sentiu que as pedras estavam enfurecidas. Batiam-se. Viravam-se, em meio a pancadas e golpes sucessivos. A guerra recomeçava.
 
De repente, veio a calmaria. E, com ela,  o alívio de ver um rio descendo, rápido e sinuoso, levando em seu leito quatro pedras. Juntas, de uma só vez.
pedraflor

Quando a dor crescia e arranhava dentro dos rins, ela não se mexia. Aquietava-se num canto, com os olhos embriagados de cansaço, que diminuíam de tamanho com a queda das pálpebras. As bochechas rosadas ganhavam a cor de pera amarela, fruta única esquecida há dias na fruteira.   Movimentos bruscos faziam as pedras mudarem de Continue Reading