Eu escovando os dentes, e Jane Austen me olhando

Por: sexta-feira, setembro 19, 2014 4
jane-2Bausten

Naquela madrugada, decidi jogar o meu último conto no lixo. Eram apenas milhares de palavras que mereciam ser esquecidas: adjetivos desnecessários, prosa repetitiva, personagens fracos. Nada seria como os textos dela. E já eram tantos mortos no lixo, que mais um não faria diferença.

Adormeci sem perceber. Algumas horas depois, acordei com o toque do despertador. Levantei-me e fui escovar os dentes.

— O que te levou a proceder tão cruelmente com seu manuscrito? — disse-me uma mulher.

Fez-se um silêncio.

— Não me reconhece? Sou Jane Austen!

Continuei sem dizer uma palavra sequer.

— Cabe-lhe agora dizer alguma coisa, Patrícia. Seria esquisito ficar em silêncio o tempo todo.

Eu não poderia perder tempo. Deveria dizer o que sempre desejei, caso tivesse, algum dia, Jane Austen à minha frente.

— Sou apaixonada pelos seus livros — falei, ao cuspir a pasta dental na pia. — Nenhum livro se compara a Orgulho e Preconceito.

— Quando foi que se apaixonou pelos meus livros?

— Não posso determinar a hora, o lugar, o aspecto ou as palavras que serviram de fundamento. Foi há muito tempo. Minha paixão já ia pelo meio quando percebi que havia começado.

— Seja sincera: admirou-me pela impertinência?

— Pela animação de espírito.

— Pode chamar de impertinência.

— A verdade é que tenho tido uma grande problema. Meus dedos não escrevem sobre esse papel com a mesma técnica e desembaraço que tenho visto por parte de outras escritoras. 

— Já pensou que talvez esteja sendo muito crítica consigo mesma? Orgulhosa ou preconceituosa com seus próprios textos?

Quando me virei para guardar a escova de dentes, Jane havia desaparecido.

Voltei ao lixo e retirei dele as folhas amassadas.

 

jane-2Bausten

Naquela madrugada, decidi jogar o meu último conto no lixo. Eram apenas milhares de palavras que mereciam ser esquecidas: adjetivos desnecessários, prosa repetitiva, personagens fracos. Nada seria como os textos dela. E já eram tantos mortos no lixo, que mais um não faria diferença. Adormeci sem perceber. Algumas horas depois, acordei com o toque do Continue Reading

Quando o céu é verde escuro

Por: terça-feira, setembro 9, 2014 2
vitral
Depois de vinte e cinco anos sem ver minha mãe, hoje a encontrei do outro lado da janela de vitrais amarelos. Ela me olhava com olhos serenos e atentos, enquanto eu atravessava o portão de ferro coberto por primaveras que eram sempre podadas mesmo contra minha vontade. Eu pedia para não cortá-las porque eram a moldura da casa onde cresci e que agora está prestes a ser alugada por um desconhecido, um estranho cuja sorte sorriria toda vez que passasse por aquele jardim.
 
Desacelerei os passos quando ela inclinou levemente sua cabeça para a esquerda assim como a folhagem de uma árvore que se curva quando tocada por uma brisa, avisando da mudança de estação. Senti-me como o inverno que, de repente, perde o frio e a neve e regredi aos meus quatro anos. De alguma forma, ela percebeu meus pensamentos e confirmou minha lembrança sem falar uma única palavra, sem ao menos se mexer; continuou estática como uma pintura que eu decifrava.
 
Nas minhas lembranças me vi com as pernas pequenas e braços miúdos, arrastando uma cadeira da sala para debaixo da janela. Fiquei sobre a cadeira por alguns minutos, olhando para tudo que acontecia através dos vitrais amarelos e achava engraçado como as coisas mudavam de cor. As flores vermelhas do jardim se tornavam laranja e o azul do céu se convertia em verde escuro. Entusiasmada com tanta novidade, quis sair correndo contar o que via, mas a cadeira balançou e, de um golpe só, fui ao chão.
 
Já falei para me chamar quando quiser subir na janela! Foi assim que ela falou comigo depois de ter inclinado sua cabeça por alguns segundos, exatamente como fez hoje pela manhã ao me ver atravessando o portão. Em ambas as vezes, seus olhos denunciaram um orgulho reprimido. Ela sabia que eu não me contentava com as paredes brancas ao redor.  
 
Desde que ela se foi, enlaçada pela metástase que a deixou sem cor, nunca mais olhei por aqueles vitrais. Ela sabia disso e agora me questionava como se quisesse entender a razão da minha falta. Está vendo o céu azul ou verde? Azul, respondi. É porque você não está vendo através da janela! Ao terminar de dizer isto, notei que ela desaparecia aos poucos, até não restar uma centelha de brilho.
 
Entrei na casa e me dirigi à janela. Seria a primeira vez que eu olharia pelos vitrais amarelos, apoiada nas minhas próprias pernas, sem a ajuda de cadeiras e sem medo de ir ao chão. E lá estava ele, o céu verde escuro. Há quanto tempo eu não via o céu tão verde! Verde como folhagens novas. Retirei os vitrais dos meus olhos e, ainda assim, continuei a vê-lo verde. Verde, verde! Que tolice a minha alugar aquela casa! A única casa que fica sob um céu verde escuro. 
vitral

Depois de vinte e cinco anos sem ver minha mãe, hoje a encontrei do outro lado da janela de vitrais amarelos. Ela me olhava com olhos serenos e atentos, enquanto eu atravessava o portão de ferro coberto por primaveras que eram sempre podadas mesmo contra minha vontade. Eu pedia para não cortá-las porque eram a Continue Reading