Baba de moça

Por: quinta-feira, outubro 16, 2014 2
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As pontas dos dedos são como colheres que se queimam no fundo da panela suja de baba de moça. Quando sinto que elas estão prestes a se queimar com o alumínio ainda quente, transformando minhas digitais, eu as retiro de pronto. É o limiar. Sinto o calor penetrar forte, avisando minhas papilas gustativas de que algo extraordinário está por vir.
 
Uma lata de leite condensado, um vidro de leite de coco, três gemas e uma xícara de chá de açúcar. Misturo tudo e levo ao fogo. Mexo até engrossar. O vapor tem cheiro de mistura doce, cores de Klimt e gosto de beijo de língua. Desligo o fogo. O creme ainda borbulha, independente da chama que não mais existe, já apagada há alguns segundos.
 
Na água, a baba de moça esfria lentamente. O vapor, aos poucos, desvanece. Derramo o creme numa vasilha e a abandono sobre a mesa. Toco o fundo da panela com as pontas dos dedos, e as lambuzo com o creme morno. Na língua, a baba de moça se desmancha e vira adubo para as flores que nascem dentro da boca  coloridas e doces, brotando em mim.

O extraordinário termina e continuo a dormir.


Imagem: Gustav Klimt, “Sea serpents IV” 
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  As pontas dos dedos são como colheres que se queimam no fundo da panela suja de baba de moça. Quando sinto que elas estão prestes a se queimar com o alumínio ainda quente, transformando minhas digitais, eu as retiro de pronto. É o limiar. Sinto o calor penetrar forte, avisando minhas papilas gustativas de Continue Reading

Os rinocerontes que andam pelas ruas

Por: quarta-feira, outubro 8, 2014 1
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Durante a semana, rego com vinho as plantas que cultivo. Dizem que faz muito bem para a nossa saúde, então, por que não faria o mesmo para as plantas? Depois de embebedá-las, assisto às ondas do mar avançarem sobre os prédios, adentrando os apartamentos e roubando deles móveis e gente.
 
Aos domingos, são frequentes os rinocerontes que andam pelas ruas, assustando-me com seus chifres que perfuram minha pele e quase atravessam meus braços. Quando não conseguem ver o sangue escorrer pelas minhas veias, os rinocerontes são imperdoáveis – prendem-me em celas inescapáveis.
 
Quando bebo o vinho, ao invés de derramá-lo sobre as plantas, sinto um gosto amargo de remédio, que substitui o doce tinto da uva. O mar passa a ser uma simples piscina, e os rinocerontes tomam feições de médicos com perigosas injeções em suas mãos. Tento fugir da triste realidade que os meus olhos veem, mas a loucura é inescapável. Ela me prende numa camisa de força e inebria meus sentidos.

 



Imagem: O rinoceronte do D. Manuel I, de Onik Sahakian
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Durante a semana, rego com vinho as plantas que cultivo. Dizem que faz muito bem para a nossa saúde, então, por que não faria o mesmo para as plantas? Depois de embebedá-las, assisto às ondas do mar avançarem sobre os prédios, adentrando os apartamentos e roubando deles móveis e gente.   Aos domingos, são frequentes Continue Reading