Criado-mudo

Por: quinta-feira, novembro 20, 2014 0
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Após tanto tempo, sentia-se empoeirado. Não conseguia enxergar como antes os devidos lugares dos talheres e pratos, e temia pela porcelana inglesa nas mãos. Seus dedos tremiam e os ossos doíam. Para onde iria quando descobrissem seu segredo, sua atual condição?
Não se importava em não ser notado ou em ser posto num canto da casa. Tinha se acostumado com a indiferença e se adequado à imutabilidade da vida. As forças que costumava ter quando era jovem desapareceram e, agora, via-se tão velho como as cadeiras da sala de estar, equilibrando-se em pernas finas e ocas.
Sua discrição o tornava um homem quase invisível, como se seu corpo se mesclasse à mobília da casa, arrastada para lá e para cá nos aniversários. Costumava servir com destreza e elegância. Nenhuma gota de bebida era derramada fora de uma taça servida por ele. Mas agora se sentia assim, com uma gota de vinho que tinha caído e manchado a toalha de seda, sob os olhares reprovadores dos convidados.
Sem filhos e sem mulher, considerava seus patrões como sua única família. Gostava de protegê-los com o guarda-chuva, enquanto dançavam nas festas à beira da praia. E era grato pelos trinta anos de servidão. Mas a vida que é boa não dura muito, pensava ele, e portanto, o mal se aproximava e se acomodava em seu corpo. Para o mal de Parkinson, não havia saída, nem luz de salvação.
Como equilibrar a bandeja ou o guarda-chuva sobre mãos tão instáveis, como a terra que treme ao sofrer um terremoto?
Em silêncio, quando os patrões já dormiam, resolveu partir. Fez as malas pesadas de tanta amargura e olhou pela última vez para os móveis que o rodeavam, a mesa antiga e as cadeiras ocas. Ao notar o criado-mudo que  ficaria em seu lugar reservado, sentiu inveja.
Na manhã seguinte, foi procurado pelos patrões. Ao ser encontrado à noite, caminhando com o olhar perdido no meio da rua, falou que era apenas um criado-mudo e pediu para ser esquecido. Um criado-mudo não treme, Osvaldo, disseram. Eles sabiam e, por causa disso, o queriam de volta, não mais para serem servidos, mas para servir. 
 Entre, Osvaldo, está frio aí fora; vamos para casa dormir. 

 

Imagem: “Dancer in Emerald”, de Jack Vettriano

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Após tanto tempo, sentia-se empoeirado. Não conseguia enxergar como antes os devidos lugares dos talheres e pratos, e temia pela porcelana inglesa nas mãos. Seus dedos tremiam e os ossos doíam. Para onde iria quando descobrissem seu segredo, sua atual condição? Não se importava em não ser notado ou em ser posto num canto da casa. Tinha Continue Reading

Duas palavras

Por: quinta-feira, novembro 13, 2014 0
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A primeira vez que Gilberto entrou no quarto de Adélia, surpreendeu-se com as paredes. Havia centenas de palavras rabiscadas nelas. “Os homens sempre deixam duas palavras para mim, antes de deixarem meu quarto”, ela explicou. Era um costume que se dava em todos os quartos daquela casa e também das redondezas. Ninguém sabia como todos haviam se adaptado àquela prática. Ele nada disse e, alvoroçado, despiu-se rapidamente, embriagado com o cheiro de canela que se esparramava pelo ambiente.
 
Sobre a cama, unidos num só, ele imaginava as palavras que escreveria. Ao suspirar o último gemido no ouvido dela, após tantos outros, ele fez um pedido: “Quero escrever as duas palavras nos seus seios”. Ela concordou, e logo abriu o armário para procurar a caneta. Gilberto marcou os seios da moça, desenhando cada letra com o cuidado que aquela pele merecia. Adélia sentia a tinta fria, quase dolorida, penetrando em seus poros. “Amanhã, volto para te ver”, despediu-se.
 
Enquanto o tempo resistia à força do desejo de Adélia, ela olhava para cada palavra rabiscada nas paredes, e se sentia sozinha, como se nunca houvesse sido mulher de alguém, e como se ninguém tivesse sido dela até então. No espelho, Adélia viu refletida uma palavra em cada seio e, no banho, protegeu-as da água devastadora. Sentia as letras tatuadas na sua pele, ardendo com uma força que ela não imaginava que pudessem exercer.
 
Gilberto voltou uma semana depois e, dessa vez, foi ela quem pediu a ele que a deixasse escrever em seu corpo. “Quero escrever em suas coxas”, ela disse. Ele discordou por quase um segundo, mas logo cedeu. Ela escreveu a primeira palavra na coxa esquerda dele e, depois, na direita. Ela imprimia com força a tinta na pele, que era para ela não se esvair com o tempo, com qualquer troca de roupa ou beijos de outra moça.
 
No dia seguinte, Adélia não quis receber as visitas de sempre. Não desceu para o salão lotado de gente, não cantou nem bebeu. Comeu algumas fatias de pão ao meio dia e, às cinco horas da tarde, deitou-se na cama para aguardar Gilberto. Às oito da noite, Gilberto entrou no quarto sem pedir permissão, beijou-a como não houvera feito ainda e, antes mesmo de se deitar, empossou-se da caneta sobre um criado-mudo e escreveu nos lábios rosados de Adélia – as mesmas duas palavras que havia escrito em seus seios. Ela retirou a caneta dos dedos de Gilberto e fez o mesmo nos lábios dele. Naquela noite, eles adormeceram juntos, e sonharam que suas peles estavam manchadas como aquelas paredes. 
 
Adélia acordou com o cheiro de café que vinha do salão, misturado à canela que inebriava os lençóis. Gilberto já não estava ao lado dela, e havia deixado o quarto, em busca de outras andanças, forasteiro que era. Por alguns instantes, ela permaneceu na cama, imaginando se ele havia se banhado, se a tinta dos lábios dele havia se escorrido com a água quente do chuveiro. As duas palavras que Adélia escrevera estariam agora no fundo do ralo, perdidas entre cabelos molhados e esquecidos.
 
Ela se levantou, desceu as escadas e pediu um balde com água e sabão. Sozinha, lavou as paredes de seu quarto com a espuma, até que não restasse uma só palavra nelas. Depois, lembrou-se do que escrevera nas coxas do homem que nunca mais veria: Meu homem. Ela se olhou novamente no espelho e leu, em voz alta, as duas palavras que seu corpo mostrava, antes que fossem apagadas pela espuma que tinha nas mãos: Minha mulher. Daquele dia em diante, era Adélia quem escrevia nas paredes do seu quarto, preenchendo o vazio do branco com inúmeras palavras. Suas palavras e de mais ninguém.

 
Imagem: “Mulher nua sensual reclinada”, Amedeo Modigliani
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A primeira vez que Gilberto entrou no quarto de Adélia, surpreendeu-se com as paredes. Havia centenas de palavras rabiscadas nelas. “Os homens sempre deixam duas palavras para mim, antes de deixarem meu quarto”, ela explicou. Era um costume que se dava em todos os quartos daquela casa e também das redondezas. Ninguém sabia como todos Continue Reading

Carta a Shakespeare

Por: quarta-feira, novembro 5, 2014 0
judith
Querido irmão,
 
Quando as janelas estão cerradas, não consigo ir muito além das paredes mofadas de casa. Isso justifica a ânsia que me consome, todas as manhãs, ao acordar. Vou correndo abri-las, como se fossem portas para o horizonte. Elas me mostram um céu nublado, inglês, que não esconde a vontade de chorar. A chuva é como lágrimas, penso eu, e vou logo chamar Margareth para ver as gotas caindo sobre as árvores.  

Depois preparo a mesa para o café. Aguardo, ansiosa, pelas xícaras sujas e farelos de pão. São sinais de que posso em breve lavar a louça e me sentar à frente da cômoda da sala de estar, como faço agora, para escrever algumas linhas. Há tempos que tento terminar um capítulo, mas as interrupções são constantes nesses dias que antecedem o meu casamento.

Como eu gostaria de estar em Londres com você, nas primeiras cadeiras do teatro, assistindo a Romeu se declarando ao único e último amor de sua vida! Não existe, em toda a Inglaterra, um escritor tão profundo e conhecedor dos sentimentos humanos como você, meu irmão. Será que, um dia, também serei  uma grande escritora? Creio que não. Minhas atividades domésticas me consomem diariamente, e é difícil me concentrar com tanto barulho à minha volta. Talvez, eu tenha a opção de narrativas curtas, o que acha, Will?

É uma pena você não poder estar no meu casamento, mas guardarei comigo seus votos sinceros de sorte e amor. Se por acaso eu não for feliz, deseje-me que, ao menos, minha tristeza tenha algum proveito nas suas histórias, e que a minha esperança de ser feliz não se acabe como um sonho de uma noite de verão.
                                                                  
                                                                      Com carinho,
                                                                  Judith Shakespeare
 
 
Esta carta foi inspirada no livro escrito por Virginia Woolf, em 1928 “Um teto todo seu”, onde a autora discorre sobre as dificuldades das mulheres de sua época para se tornarem escritoras, devido aos diversos empecilhos e obrigações sociais que deviam observar. Para ilustrar a diferença de oportunidades oferecidas aos homens e às mulheres ao longo da história, Virginia Woolf imagina a existência hipotética de uma irmã de William Shakespeare chamada Judith. Teria ela tempo e dinheiro para se dedicar ao ofício da escrita? O que ela faria enquanto seu brilhante irmão estreava peças de teatro em Londres? Teria sido uma grande escritora? Quase um século se passou, e os mesmos questionamentos de Virginia Woolf ainda podem ser aplicados em nosso tempo, em pleno século XXI.


Imagem: “Retrato de uma jovem” de Domenico Ghirlandaio
judith

Querido irmão,   Quando as janelas estão cerradas, não consigo ir muito além das paredes mofadas de casa. Isso justifica a ânsia que me consome, todas as manhãs, ao acordar. Vou correndo abri-las, como se fossem portas para o horizonte. Elas me mostram um céu nublado, inglês, que não esconde a vontade de chorar. A Continue Reading