Prece por todos os escritores

Por: quarta-feira, dezembro 31, 2014 0

clarice-2Bblog

Santa Clarice Lispector e São Gabriel García Márquez,

 

Deixem as nossas mãos se cansarem de criar o que só é possível nos livros, na profundidade do nosso mundo invisível.

Ajude-nos a superar o medo da opinião alheia, da nossa própria censura e dos monstros que querem nos calar.

Deem a nós a coragem de mudar a estabilidade das palavras rasas, burocráticas e formais. 

Atirem todos nós no mar em que vocês se banharam, brincaram de fazer uma nova realidade, abriram janelas cerradas e empoeiradas!

Que haja festa entre aqueles que podem escrever e que haja luta onde as pessoas tenham essa liberdade negada.

Onde estão todos os escritores mortos? Pedimos para que seus túmulos balancem a terra e que haja o renascimento daqueles esquecidos, que não ocupam mais as prateleiras das livrarias, os jornais e as estantes.

Não nos neguem os segredos da imortalidade silenciosa e coerente de uma literatura sem amarras, pré-definidas ou criadas agora, por nós mesmos. 

Pedimos voos sem volta, mergulhos a poços sem fundo, viagens a mundos desconhecidos e ao redor do nosso próprio mundo (cada viela, biboca e quaisquer lugares onde haja histórias).

Rogamos para que todos os escritores possam ouvir o chamado de sua vocação – essa voz torturante que apenas cessa quando nós a aceitamos.

Quando o tempo for curto, pedimos ao menos que em sonho possamos nos dedicar à escrita, este ofício desesperador, e ao mesmo tempo cheio de mansidão. Proteja-nos da perda da inspiração, este mel rejuvenescedor, hoje e sempre.

P.B

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Santa Clarice Lispector e São Gabriel García Márquez,   Deixem as nossas mãos se cansarem de criar o que só é possível nos livros, na profundidade do nosso mundo invisível. Ajude-nos a superar o medo da opinião alheia, da nossa própria censura e dos monstros que querem nos calar. Deem a nós a coragem de Continue Reading

Pai nosso que estais na ponte, na calçada e ao meu lado

Por: quarta-feira, dezembro 24, 2014 4
 Chagall-2B1
        Nanana nananana nananananana, fique aí, durma mais um pouco, escute a minha canção de ninar. Ela tentou conter as contrações, tampou seu umbigo com as mãos e continuou a cantar baixinho para ninguém ouvir: nanana nananana nananana nana… Mas a criança se debatia, chutava para o alto, revirava-se naquele abdômen inchado como se não pudesse mais aguardar para fazer parte da indocilidade do mundo. Que leite jorrará deste peito seco, desta mulher feita de restos de poeira?, questionava ela, ao sentir o menino sendo expulso de seu corpo.
         Recostada na parede pichada e úmida de chuva, ela urrava gritos doloridos, mais altos que as buzinas dos veículos que passavam ao seu lado, em lampejos velozes para não se atrasarem à ceia natalina. Invisível, a pobre se contorcia sem medo de esmorecer diante do fio de vida que escorreria pelas suas pernas. Seria apenas fio porque certamente o rebento nasceria tão fraco que, ao primeiro suspiro, seria atacado pelo cansaço. Viver para ele seria uma saga ou uma corrida de bastão com a morte, e ele saberia disso no primeiro segundo que olhasse para sua mãe.

        A mulher aflita acariciava a barriga ao tempo que olhava para o céu à procura de uma escada para subir rumo ao paraíso. Quando poderei ir para o céu?, pensava ela, crente na felicidade do alto, onde as pessoas não sentem fome, frio ou dor. Em sua vida rasa, de andanças a pés descalços, vinte anos já haviam se passado e até então ela não recebera sequer um sinal do anjo da sorte, prometido pela avó quando ainda era criança. Ao contrário, deparava-se com demônios alucinantes a lhe sacar a esperança de se ver feliz ao menos na noite de natal.
O pai do bebê se perdera na grande cidade, errara o número de ônibus, e só soube do seu equívoco quando teve de descer no último ponto, o de Benfica. E como já era tarde, resolveu parar por lá mesmo, deitou-se na calçada e pôs-se à espera da noite passar. Ela, debaixo da ponte, do outro lado do Rio de Janeiro, assumia enfim que não haveria meios de deter aquele nascimento, e que se não houvesse leite nem pão nem cobertor, buscaria alimentá-lo com algum amor ou com a misericórdia de desconhecidos.
Quando a chuva engrossou e se fez tempestade, o barulho dos raios expulsou a criança. Um choro agudo e infantil estourou na varanda de um apartamento da esquina e fez três mulheres surgirem na janela, à procura daquele canto de tristeza. Ao identificarem a mulher com o recém-nascido chuviscados de sangue, as três saíram com os seus guarda-chuvas na mão, gritando Chame uma ambulância, uma mulher dá a luz! 
 
Nesse momento, da janela ao meu lado, eu vi, juro que vi, o anjo da sorte aparecer. Ele estava lá debaixo da ponte, na calçada e ao meu lado.


            

            (Imagem: L’Ange Bleu, de Marc Chagall)
Chagall-2B1

          Nanana nananana nananananana, fique aí, durma mais um pouco, escute a minha canção de ninar. Ela tentou conter as contrações, tampou seu umbigo com as mãos e continuou a cantar baixinho para ninguém ouvir: nanana nananana nananana nana… Mas a criança se debatia, chutava para o alto, revirava-se naquele abdômen Continue Reading

Hino moderno à Deméter

Por: quarta-feira, dezembro 17, 2014 0
 retornos
 
Contam os gregos que Hades, deus dos mortos, raptou Perséfone, levando-a para o seu reino subterrâneo. Deméter, enfurecida, iniciou a procura pela sua filha, recusou-se a voltar para o Olimpo sem ela e assumiu o aspecto de uma velha. Em Elêusis, pôs-se a serviço de Céleo, rei de Elêusis, o qual a encarregou de cuidar de seu filho.
 
Enquanto não tinha de volta sua filha, Deméter se vingava dos deuses, tornando a terra estéril  nada do que se plantava crescia. Zeus acabou por intervir junto a Hades, quando percebeu a desarmonia na natureza. Apesar desta intervenção, Perséfone ficou eternamente no reino subterrâneo, pois havia comido sementes de romã. Perséfone  se tornou a esposa de Hades, e apenas o deixaria e se reuniria com a mãe, no Olimpo, nas épocas de primavera.
 
O Hino moderno à Deméter foi inspirado neste mito e nas deusas atuais  mães à procura de suas filhas.


Hino moderno à Deméter
Deméter era a deusa do Leblon. 
Sua filha de grossos tornozelos
era a moça que Hades raptou.
Bem longe de Deméter, Perséfone
vagava na areia de diamantes,
cacos que serviam para refletir
rara beleza nunca vista antes.
Quando no mar violento de ondas
verdes e azuladas, Perséfone
brincava de lembrar de sua infância,
um homem procurado foi visto por
todos:  por aqueles que se banhavam
e ainda por outros que se rachavam
no Sol quente, com seus biscoitos secos,
vendidos no duro labor ardente.
Ao ver o homem (ou deus?) com os braços
fortes e olhos de mesma cor do mar,
ela pensou: “ Em qual mar vou me banhar?”
Fascinada, andou sobre os cacos,
sem medo de cortar seus tão frágeis pés.
Sentiu a terra se abrir, e o céu
do alto a grande praia engolir.
O tempo não calculou os segundos
até a fuga tão indesejada.
“Alguém viu minha filha Perséfone?”,
a mãe desesperada procurava.
“Não, madame”,  transeuntes falavam.
Ninguém havia sido testemunha
do rapto muito ligeiro do amor.
 “Não houve gritos de moça nenhuma”,
“Não há por que ter receio ou pavor”.
Dor aguda lhe tomou o coração
e aumentou quando alguém lhe contou:
“Perséfone está em grande risco:
com o chefe do morro do Alemão”.
Deméter pôs um véu sobre os ombros
e se atirou como um pássaro,
sobre o sólido e o líquido,
procurando-a, sozinha, no morro,
na favela escura e temida.
Ninguém a via ou reconhecia.
Ela vagou, durante nove dias,
Dia e noite, de casa em casa,
Atrás da bela e única filha.
Cansada da procura incessante,
Deméter se jogou, martirizada,
oca, aflita, no meio do barro,
Queria deixar a alma pesada.
“Quem és tu e vem de onde, oh, velha?” ,
perguntou uma humilde senhora,
trabalhadora e mãe dedicada.
“Sou uma cuidadora, à procura
de um lugar digno para trabalhar”.
“Em minha casa você pode ficar,
e terás pão que a alimentará.
Trabalho para madames do Leblon,
Vivo cuidando das crianças de lá,
mas ninguém cuida das do lado de cá.”
Deméter não recusou a proposta;
No morro ficaria, sem lamentar,
Até a amada filha encontrar.
Durante os anos que se passaram,
a deusa colecionava amigos,
entre balas de revólver e gritos,
Deméter não pensava em desistir:
Na sombria noite definitiva,
os moradores eram um batalhão,
Deméter tirou o véu e procurou
Hades, chefe do morro do Alemão.
“Eu vim buscar minha amada filha,
Um grande batalhão luta comigo;
A polícia te levará à prisão”.
Perséfone surgiu entre as sombras,
Surpresa, gritava ao ver sua mãe.
“Quer mesmo me deixar?”, perguntou Hades.
“Se comigo ficares para sempre,
terás no morro as maiores honras”.
Os olhos vermelhos de Perséfone
delataram o  veneno dos loucos:
o pó perigoso da cor das nuvens.
Deméter abraçou a sua filha
e a molhou, vertendo sobre ela
as suas lágrimas tão destemidas. 
O banho fez Perséfone suspirar,
“Oh, tenha compaixão de sua filha!
Me cure, mãe, não deixe de me amar!”
Rapidamente, elas correram juntas,
e atravessaram juntas o morro.
Deméter sentia que sua filha,
moça ingênua de mente sadia
Não mais existia nem voltaria.
Perdera a antiga Perséfone.
Deméter sabia: para o morro
sua filha ainda voltaria.
 imagem: “Pão de Açúcar”, de Maria de Oliveira
 
 
 
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    Contam os gregos que Hades, deus dos mortos, raptou Perséfone, levando-a para o seu reino subterrâneo. Deméter, enfurecida, iniciou a procura pela sua filha, recusou-se a voltar para o Olimpo sem ela e assumiu o aspecto de uma velha. Em Elêusis, pôs-se a serviço de Céleo, rei de Elêusis, o qual a encarregou Continue Reading

O sabor da bondade

Por: quarta-feira, dezembro 10, 2014 4
 ch-C3-A1
Meus braços se comportam como ponteiros do relógio: contam os segundos que passam. Cada centímetro que se desloca tem a pressa da minha vontade de deixá-la partir: não tenho pressa. Quero que ela se vá lentamente. Devagar como me conquistou, assim aos poucos, de miúdo em miúdo me atirando em textos suculentos, fartos de intensidade humana.
 
Ela não me ensinou o que não sei, mas a medida do que não sei, que é grande demais. Aprendi que meu conhecimento não beira um rio, um lastro de água que corre depois da chuva. Não sei quantas mulheres há em mim mesma ou quantas há no mundo, ansiosas para serem lidas e compreendidas. Não sei quantas palavras são necessárias para se exprimir uma saudade de quem ainda não partiu e tampouco sei se é possível sentir falta de quem ainda se tem à frente. 
 
E quando ela se for? A distância é grande, e a tristeza há de se maior do que a minha ignorância sobre aquilo que não sei. Os sábados não serão os mesmos e, ainda que haja biscoitos, eles não terão o sabor da bondade. A Bondade de Carol Shields, praticada tão democraticamente por mulheres ao redor da mesa. Todas com seus bichos, filhos, malas, amores, tudo o que elas têm direito de carregar nos braços, na alma e nas costas. Quais bichos resistirão sem ela?
 
Não é necessário dizer o nome de quem estou falando, de quem está de saída, de mala e cuia, para algum lugar dourado. E se lá reluz a ouro, aqui ficará seu reflexo. Além do mais, não gosto de identificar os sujeitos das minhas saudades confundidas todas no peito, porque nomeá-las só as faz aumentar. Deixa assim, elas dormindo sem que eu as acorde ou acenda a luz. Enquanto isso, fico pensando em quem inventou a amizade. Devo responsabilizar o criador dela, porque alguém precisa ser responsabilizado, e não sou eu nem ela.
 
Quando os ponteiros do relógio chegarem ao fim, vou me despedir. Que eu tenha a sorte de uma distância relativa, visitas surpresa e reencontros mensais.  É a minha oração do dia. 

 

Imagem: “Allegory of the four elements”, de Mark Ryden

ch-C3-A1

  Meus braços se comportam como ponteiros do relógio: contam os segundos que passam. Cada centímetro que se desloca tem a pressa da minha vontade de deixá-la partir: não tenho pressa. Quero que ela se vá lentamente. Devagar como me conquistou, assim aos poucos, de miúdo em miúdo me atirando em textos suculentos, fartos de Continue Reading

Todos os vivos merecem o hospício

Por: quarta-feira, dezembro 3, 2014 4
 rosa-2Bo-2Bxale
A loucura sempre foi para mim uma tentativa de cura. Sou louca porque tento remediar as feridas causadas pelas minhas memórias. Um labirinto sem saída sou eu, perdida entre tantos caminhos que dão a lugar nenhum, repleto de muros intransponíveis de tijolos grossos. Alguém consegue ver o que há além dessas paredes? Aqui, protegida pelos muros que me circundam, não há ninguém além de mim. É assim a loucura, uma solidão só.
 
Sou forte porque sobrevivo em meio ao caos. Não há comida que mate a minha fome, nem banho que limpe os meus erros. Quanto pesa a culpa? É o peso destes tijolos, empilhados um a um, com as minhas mãos velhas e calosas. Já não há coluna que mantenha o meu corpo ereto; há apenas uma pena que se dobra com o vento. Sinto-me assim, um paradoxo, ao mesmo tempo pesada e leve, feliz e triste. Neste instante, sou uma pedra, amanhã não sei.
 
Para aqueles que dizem que eu mereço o hospício eu respondo: todos os vivos merecem o hospício. Quem não tem direito à cura? Às injeções de esquizofrenia? Aos comprimidos de alucinações? Ao tempo, este antisséptico de efeitos demorados? Eu tenho o direito a todos os furos nas minhas veias calibradas! Quero as gotas incandescentes de soro, as dores de consciência e do corpo, o choque no meu coração de batimentos lentos.
 
A loucura trocou todos os meus órgãos, fez hemodiálise e transfusão. Após tantas horas de cirurgia, eu aguardo o apagar dos meus olhos e o silêncio do repouso. Sinto-me forte, com o sangue correndo acelerado. Se ontem eu era pedra, hoje sou planta. Finalmente, consigo caminhar e ver a sanidade convidando-me a sair por um estreito portão. O que teria sido de mim se não fosse a loucura? Corro porque em mim só existe a pena, e se flutuo, é porque já estou curada. 


Imagem: “Echoes travelling”, de Troy Brooks

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  A loucura sempre foi para mim uma tentativa de cura. Sou louca porque tento remediar as feridas causadas pelas minhas memórias. Um labirinto sem saída sou eu, perdida entre tantos caminhos que dão a lugar nenhum, repleto de muros intransponíveis de tijolos grossos. Alguém consegue ver o que há além dessas paredes? Aqui, protegida Continue Reading