Quando as manequins de plástico se quebram

Por: quinta-feira, fevereiro 26, 2015 0

 

vestido-branco

Diante das vitrines, eu me derretia de vontade de ter o corpo das manequins de plástico. Aquelas cinturas finas, pernas infinitas e seios que contrariavam a lei da gravidade eram ópio para mim. O desejo consumia meus sonhos e neles me via flutuar de tão leve, sem as dobraduras de pele das minhas coxas e braços. Eu queria ser magra, magra, magra, até sumir com o vento, de tão fraca. Decidi que de fome meu corpo não morreria e somente se abateria com o vento, como galhos secos de árvore sem chuva. Puf! A qualquer momento, o galho fino se quebraria no chão.

De repente, os meus olhos começaram a se turvar, e a pouca comida me salvava, grãos minuciosamente escolhidos para manter a lenta respiração. Tudo pelo vestido branco que me chamava para dentro dele, abotoado, com laços e rendas, como uma manequim de plástico. Apertado não, folgado, cada botão em seu devido lugar agradeceria pelo espaço e conforto concedido por uma mulher dotada de ossos e nada mais. Eu sentia a vida girar, girar, girar, a roda gigante me levava para conhecer as alucinações de uma mulher faminta.

Puf! Não falei que o galho se quebraria?

Agora é hora de colar as fissuras, aos poucos. Nos meus sonhos, vejo novamente minhas dobraduras de pele, fortes e extravagantes, dizendo para os botões do vestido apertado: este espaço é meu.

 

Pintura de Jeanne Lorioz

vestido-branco

  Diante das vitrines, eu me derretia de vontade de ter o corpo das manequins de plástico. Aquelas cinturas finas, pernas infinitas e seios que contrariavam a lei da gravidade eram ópio para mim. O desejo consumia meus sonhos e neles me via flutuar de tão leve, sem as dobraduras de pele das minhas coxas e braços. Continue Reading

Este outro mundo que esquecemos todos os dias

Por: quinta-feira, fevereiro 12, 2015 1

este outro mundo

Confraria do vento, 2014

179 páginas

Crônicas

Lélia Almeida

 

 Neste livro sensível e atual, Lélia Almeida descreve o universo humano em crônicas que nos remetem ao cotidiano, acontecimentos tão injustamente esquecidos. A mãe cuidadosa, uma oração, a mulher em menopausa, uma tarde no cabelereiro. Tudo  se transforma em história, possibilidade de reflexão, uma fuga daquilo que é comum. Há, na verdade, uma homenagem à vida que esquecemos de viver todos os dias

A começar pela primeira crônica, Mulheres Famintas, a autora nos leva pelos percalços das ideias e conceitos impostos, que cerceiam a mulher e a impedem de ser feliz, desde a mais tenra idade. A busca incessante pela magreza não sustenta a fome real de afeto, de compreensão e principalmente, de aceitação do corpo feminino como ele é, e não como deve ser.

 

 E estas mulheres que não comem, comem o quê?

Comem a fome, a dos seus desejos mais secretos, das suas necessidades afetivas mais básicas, dos seus sonhos mais recônditos.

 

Preconceitos, inveja, diferenças sociais, relações mãe e filha, sexo, medos, política, direitos das mulheres. O livro trata disso tudo. Não há luvas de pelicas ou melindres para tratar dos temas polêmicos que nos rodeiam. A autora não dá trégua e nos mostra a feiúra e a beleza que criamos dia-a-dia, sem notarmos que criamos assim o nosso próprio mundo.

este outro mundo

Confraria do vento, 2014 179 páginas Crônicas Lélia Almeida    Neste livro sensível e atual, Lélia Almeida descreve o universo humano em crônicas que nos remetem ao cotidiano, acontecimentos tão injustamente esquecidos. A mãe cuidadosa, uma oração, a mulher em menopausa, uma tarde no cabelereiro. Tudo  se transforma em história, possibilidade de reflexão, uma fuga daquilo que Continue Reading

III Prêmio Pernambuco de Literatura

Por: quarta-feira, fevereiro 11, 2015 0

atenção

Fiquem atentos, o prazo de inscrição termina dia 27/02/2015!

Se você tem um livro inédito, escrito em língua portuguesa, e reside em uma das quatro macrorregiões do Estado de Pernambuco (Agreste, Região Metropolitana, Sertão e Zona da Mata), o III Prêmio Pernambuco de Literatura é a chance de ter sua obra publicada e ainda ganhar prêmios de até R$ 15.000,00 (quinze mil reais). 

Conforme o Edital do concurso, entende-se por inédito o original não publicado em formato de livro (físico ou digital), até a divugação do resultado e entrega  dos prêmios aos vencedores. É permitido que parte do conteúdo da obra inscrita tenha sido publicado em blogs, sites, redes sociais e afins.

Demais informações sobre o Prêmio você confere AQUI.

Bom trabalho e boa sorte!

atenção

Fiquem atentos, o prazo de inscrição termina dia 27/02/2015! Se você tem um livro inédito, escrito em língua portuguesa, e reside em uma das quatro macrorregiões do Estado de Pernambuco (Agreste, Região Metropolitana, Sertão e Zona da Mata), o III Prêmio Pernambuco de Literatura é a chance de ter sua obra publicada e ainda ganhar Continue Reading

Lygia Fagundes Telles

Por: segunda-feira, fevereiro 9, 2015 0

Lygia

“Eu luto com a palavra. É bom? É ruim? Não interessa, é a minha vocação”.

 

Lygia é assim: autêntica e inspiradora. Como não ser a primeira escritora favorita do blog?

Ela nasceu em São Paulo em 19 de abril de 1923, filha do promotor Durval de Azevedo Fagundes e da pianista Maria do Rosário (Zazita). Aos quinze anos, escreveu o seu primeiro livro de contos, com a ajuda de seu pai: “Porão e Sobrado”. Rigorosa consigo mesma, rejeitou alguns de seus livros iniciais, dizendo que “a pouca idade não justificava o nascimento de textos prematuros, que deveriam continuar no limbo”.

Na Escola Caetano de Campos, terminou o curso fundamental e, em 1939, ingressou na Escola Superior de Educação Física, também em São Paulo. Em 1941, ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco da Universidade de São Paulo, e começou a participar dos debates literários. Na adolescência, era amiga de Hilda Hilst, Oswald Andrade e Érico Veríssimo. Bem acompanhada essa moça, não é não?

lygia e hilda

Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst

 

correspondencia de lygia a erico

Cartão postal de Lygia Fagundes Telles a Érico Veríssimo

 

Em 1954, dá a luz ao seu único filho: Goffredo da Silva Telles Neto, fruto de seu primeiro casamento. No mesmo ano, escreve o romance “Ciranda de Pedra”, um marco da sua maturidade intelectual. Em 1960, separa-se de seu marido para ir morar com Paulo Emílio Salles Gomes (um escândalo na época, já que ela ainda estava formalmente casada).

Premiadíssima, ganhou cinco Prêmios Jabutis pelas obras: “Verão no aquário” (1963), “As meninas” (1973), “A Disciplina do Amor” (1980), “A noite Escura e mais Eu” (1995) e “Invenção e Memória” (2000). Em 2005, veio a consagração definitiva com o Prêmio Camões pelo conjunto da obra.

Se você já está babando por esta mulher, ainda tem mais: além de escritora, Lygia Fagundes Telles  trabalhava como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, cargo que exerceu até se aposentar. É membro da Academia Paulista de Letras e da Academia Brasileira de letras. Seus livros foram publicados também em Portugal, França, Alemanha, Estados Unidos, Itália, Holanda, Suécia, Espanha e República Checa.

Hoje, a escritora vive em São Paulo e escreve todos os dias. Desejo a ela vida eterna! A depender de sua obra, é certo que ela a terá.

Aqui você assiste a uma entrevista com a escritora. Vale a pena ver até o fim!

 

Obras:

Romances

  • Ciranda de Pedra, 1954
  • Verão no Aquário, 1964
  • As meninas, 1973
  • As horas nuas, 1989

 

Livros de Contos

  • Porão e sobrado, 1938
  • Praia viva, 1944
  • O cacto vermelho, 1949
  • Histórias do desencontro, 1958
  • Histórias escolhidas, 1964
  • O Jardim Selvagem, 1965
  • Antes do Baile Verde, 1970
  • Seminário dos Ratos, 1977
  • Filhos pródigos, 1978 (reeditado como A Estrutura da Bolha de Sabão, 1991)
  • A Disciplina do Amor, 1980
  • Mistérios, 1981
  • Venha ver o pôr-do-sol e outros contos, 1987
  • A noite escura e mais eu, 1995
  • Oito contos de amor, 1996
  • Invenção e Memória, 2000 (Prêmio Jabuti)
  • Durante aquele estranho chá: perdidos e achados, 2002
  • Biruta, 2004
  • Conspiração de nuvens, 2007
  • Passaporte para a China, 2011
  • O segredo e outras histórias de descoberta, 2012

 

 Prêmios

  • Prêmio do Instituto Nacional do Livro (1958)
  • Prêmio Guimarães Rosa (1972)
  • Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras (1973)
  • Prêmio Pedro Nava, de Melhor Livro do Ano (1989)
  • Melhor livro de contos,Biblioteca Nacional
  • Prêmio APLUB de Literatura
  • Prêmio Bunge (2005)
  • Prêmio Jabuti
  • Prêmio Camões (2005)

 

Lygia

“Eu luto com a palavra. É bom? É ruim? Não interessa, é a minha vocação”.   Lygia é assim: autêntica e inspiradora. Como não ser a primeira escritora favorita do blog? Ela nasceu em São Paulo em 19 de abril de 1923, filha do promotor Durval de Azevedo Fagundes e da pianista Maria do Rosário Continue Reading

Olá leitores!

Por: sábado, fevereiro 7, 2015 1

ola

O blog está migrando para um novo layout, cheio de novidades. Em poucos dias, tudo estará na bandeja, prontinho para ser servido: resenhas, contos, notícias e biografias.  Aguardem! 

ola

O blog está migrando para um novo layout, cheio de novidades. Em poucos dias, tudo estará na bandeja, prontinho para ser servido: resenhas, contos, notícias e biografias.  Aguardem! 

O xale

Por: sábado, fevereiro 7, 2015 0

xale

O xale

Editora Companhia das Letras, 2006

Drama

Páginas: 88

 

Cynthia Ozick faz uma narrativa emocionante sobre as genealogias femininas mãe-filha e mãe-sobrinha, enfatizando a força das relações afetivas entre as mulheres. A história central é sobre Rosa, ex-prisioneira de um campo de concentração, onde tenta proteger sua sobrinha Stella (uma “menina magricela de catorze anos”) e sua filha ainda bebê, Magda, envolvendo-a em um xale.

Depois de contar momentos marcantes de fome, sofrimento e traumas do Holocausto, o leitor é trazido aos tempos atuais em que Rosa vive em Miami, num quarto de solteiro de um hotel. Visivelmente depressiva, rodeada de moscas, lençóis sujos e móveis simples, tudo o que ela traz consigo são difíceis lembranças e as cartas trocadas com sua sobrinha Stella, que agora mora em Nova York. Em uma delas, Rosa descreve sua casa: “O lugar onde me enfiei é o inferno. Antes eu achava que o pior era o pior, que depois daquilo nada podia ser pior. Mas agora vejo que mesmo depois do pior ainda tem mais”.

Acontece que a casa de Rosa é, na verdade, a metáfora da profunda solidão e tristeza que tomam conta dela, causadas pela perda de sua filha Magda de forma traumática no campo de concentração, e pela difícil relação com sua sobrinha. O xale, objeto mágico que protegeu sua filha, é tratado quase como um personagem durante a narrativa. Além de ele viver constantemente na memória de Rosa, o xale é conservado mesmo após décadas, preservando o cheiro da criança que nele foi acolhida. Era a “sua mortalha”, “seus próprios órgãos”, a lembrança viva de sua filha.  

Rosa tem vários momentos de loucura e por várias vezes escreve cartas à falecida Magda. Mas um encontro com Persky (um homem paquerador e inicialmente desconhecido) pode mudar sua rotina e fazê-la refletir sobre sua vida, auto-estima e sexualidade. Persky é um despertar para desejos adormecidos. Aos poucos, o leitor descobre que se trata de um livro sobre a esperança e as tentativas de superar os holocaustos internos, existentes dentro de nós.

 

 

 

xale

O xale Editora Companhia das Letras, 2006 Drama Páginas: 88   Cynthia Ozick faz uma narrativa emocionante sobre as genealogias femininas mãe-filha e mãe-sobrinha, enfatizando a força das relações afetivas entre as mulheres. A história central é sobre Rosa, ex-prisioneira de um campo de concentração, onde tenta proteger sua sobrinha Stella (uma “menina magricela de Continue Reading