Violette – o filme sobre Violette Leduc e Simone de Beauvoir

Por: terça-feira, março 24, 2015 3

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Filme

2013

Direção: Martin Provost

Violette Leduc  é uma mulher em busca de amor, na grande Paris do século XX. Abandonada pelo seu primeiro marido, ela vê na escrita uma forma de falar sobre os seus desejos e da vontade recolhida e cruel de ser amada. A miséria não a faz desistir — ao contrário —  nela, Violette parece encontrar a simplicidade de escrever as suas memórias mais profundas, descortinando vários tabus da época: homossexualidade, aborto e as relações conturbadas com a sua mãe. É um desabafo que ela protagoniza num quarto apertado, mas todo seu, e desprovido de qualquer luxo.

Violette escrevendo

É numa tarde de grandes expectativas que Violette entrega a Simone de Beauvoir o seu primeiro manuscrito — “L’Asphyxie” (“A asfixia”). Poucos dias depois, Violette é surpreendida com o incentivo da sua nova mentora, a própria Simone de Beauvoir. Uma história de companheirismo entre estas duas mulheres surge da convivência nem sempre fácil, mas muito rica em todos os sentidos.

violette e simone

Depois de “L’Asphyxie” (1946), Violette Leduc escreve “Ravages” (“Estragos”,1955) e “La Batarde” (“A bastarda”, 1964), e também assume sua paixão não correspondida por Simone de Beauvoir. Enquanto isso “O segundo sexo” (1949) e “Os mandarins” (1954) são escritos por Simone de Beauvoir. As visões feministas de ambas as autoras são temas de vários diálogos no filme, o qual ressalta a luta das mulheres por mais independência e igualdade de direitos.

autografo

Quem assiste ao filme não tem dúvidas sobre a força da união entre as mulheres, e também da literatura: a cada página escrita, Violette se transforma numa mulher mais forte e corajosa. O filme ainda deixa várias reflexões: quais as conquistas já alcançadas pelas mulheres? E quantas ainda estão por vir?

janela

 

 

violette 2

Filme 2013 Direção: Martin Provost Violette Leduc  é uma mulher em busca de amor, na grande Paris do século XX. Abandonada pelo seu primeiro marido, ela vê na escrita uma forma de falar sobre os seus desejos e da vontade recolhida e cruel de ser amada. A miséria não a faz desistir — ao contrário — Continue Reading

A obscena Senhora D.

Por: segunda-feira, março 23, 2015 2

obscena

 

A obscena Senhora D. é Hillé, uma mulher entregue à loucura. Após a morte de seu amante, ela resolve se isolar no vão da escada de sua casa, onde constrói um diálogo existencial e profundo sobre o sentido da vida, de Deus, do amor e da solidão:

“Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem a sangrenta lógica dos dias, nem os rostos que me olham nesta vila onde moro, o que é caso, conceito, o que são as pernas, o que é ir e vir, para onde Ehud, o que são essas senhoras velhas, os ganidos da infância, os homens curvos, o que pensam de si mesmos os tolos, as crianças, o que é pensar, o que é nítido, sonoro, o que é som, trinado, urro, grito, o que é asa hem?”

Lançado em 1982, o livro é marcado pela recusa em se ater às regras, sejam elas sociais ou da língua portuguesa. Hilda Hilst constrói uma narrativa complexa, em que os diálogos surgem de forma inesperada, assim como os pensamentos de Hillé e suas memórias. Hillé grita obscenidades, nega as tentativas de aproximação dos vizinhos, é truculenta e recusa o luxo. A obscena Senhora D. demanda do leitor uma leitura atenta para não se perder na loucura da protagonista. 

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Hilda Hilst

Apesar de eu não ter apreciado determinadas passagens (aquelas que  pareciam ter o único propósito de chocar o leitor), não há como negar a complexidade do livro e de  Hillé. A protagonista é obscena pois se apresenta tal como é, sem disfarces sociais comumente usados pelas pessoas que querem ser aceitas socialmente. Sua personalidade está nua, para qualquer um ver e analisar. Ela não tem medo de questionar a existência e de falar a verdade. Hillé é rara e, por isso, mal compreendida pela vizinhança e pelo mundo. A obscenidade, para Hilda Hilst, é a honestidade.

 

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  A obscena Senhora D. é Hillé, uma mulher entregue à loucura. Após a morte de seu amante, ela resolve se isolar no vão da escada de sua casa, onde constrói um diálogo existencial e profundo sobre o sentido da vida, de Deus, do amor e da solidão: “Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem Continue Reading

Andarilhos

Por: terça-feira, março 17, 2015 0

Andarilhos

Edições Bagaço, 2007

100 páginas

Novelas

Maurício Melo Júnior

 

Andarilhos é um livro surpreendente, composto por duas novelas: “Caminho só de ida” e “Volta à seca”. A primeira se refere à saga de um escravo fugido, em busca do famigerado Quilombo de Palmares. A narrativa cuidadosa, nos moldes do Século XIX, com linguagem rebuscada, pode assustar o leitor no início, mas depois só faz apresentar o excelente trabalho de pesquisa que fez Maurício Melo Júnior para buscar os detalhes da época: costumes, paisagens e um olhar profundo sobre a condição dos escravos.

“Sabia não poder amolecer o corpo. E ficou calado e teso no seu canto, sem saber de hora ou caminhar, mas atento à certeza de estar a uma braça dos Palmares, seu sonho e sina.”

A segunda novela retrata outro momento histórico no Brasil: o cangaço.  Após cometer desmandos no Nordeste junto ao bando de Lampião, o ex-cangaceiro Antônio dos Santos (Tonho da Pinta) vai para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Ocorre que, em 1964, na capital carioca, o protagonista se depara com a ditadura, o que pode levá-lo ao caminho de volta à sua antiga vida.

 “Andarilhos” guarda regionalismo, estilo próprio e prosa bem cuidada, poética. É uma pena que seja tão pouco divulgado. 

Andarilhos

Edições Bagaço, 2007 100 páginas Novelas Maurício Melo Júnior   Andarilhos é um livro surpreendente, composto por duas novelas: “Caminho só de ida” e “Volta à seca”. A primeira se refere à saga de um escravo fugido, em busca do famigerado Quilombo de Palmares. A narrativa cuidadosa, nos moldes do Século XIX, com linguagem rebuscada, Continue Reading

Se meus pés fossem pés de fruta

Por: quarta-feira, março 11, 2015 0

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Esta fruta está gostosa e é como você quando fica com vergonha. Vermelha, com as bochechas ardendo, elas parecem que receberam um beliscão. Só aqui nasce dela, assim dessa cor, redonda nesse pé cheiroso que se espalha por todo o campo. Respira! Agora, deite sobre a grama, não precisa ter medo da terra, abre os braços e feche os olhos para eu pôr uma acerola na sua boca. O que mais você quer deste mundo? A ansiedade passa que nem folha no vento quando me lembro desse momento, não importa se estou num quarto escuro, na rua ou num hotel. A vida devia ser sempre assim, uma brisa no rosto com fruta na língua. E a grama fofa com terra úmida. Quem me dera se pudesse deitar assim todos os dias, se pudesse fazer dos meus pés os pés de fruta, presos nesse campo, bebendo da chuva. Eu seria a mulher que virou árvore, que dá sombra para o cansaço e comida para quem passar por aqui. Você me reconheceria no meio desse campo? Eu te chamaria com os meus galhos enquanto os pássaros cantam, tudo para mimar quem me gosta e que realmente consegue ver o que floresce em mim.

 

Imagem: A árvore da vida, de Gustav Klimt

 

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  Esta fruta está gostosa e é como você quando fica com vergonha. Vermelha, com as bochechas ardendo, elas parecem que receberam um beliscão. Só aqui nasce dela, assim dessa cor, redonda nesse pé cheiroso que se espalha por todo o campo. Respira! Agora, deite sobre a grama, não precisa ter medo da terra, abre os Continue Reading

Prêmio Off Flip de Literatura 2015

Por: quinta-feira, março 5, 2015 0

offflip 2015

Estão abertas até 24 de março de 2015 as inscrições para a 10ª edição do Prêmio Off Flip de Literatura, que oferecerá aos vencedores R$ 26 mil no total, além de estadia em Paraty durante a FLIP, passeio de escuna e cota de livros. Os textos serão avaliados por escritores de expressão no cenário literário brasileiro e os vencedores participarão de mesa de debate na Off Flip das Letras. Os selecionados em conto e poesia serão publicados em coletânea e os autores das obras vencedoras no gênero infantojuvenil firmarão contrato de edição com o Selo Off Flip. O sarau de premiação acontecerá no Centro Cultural SESC Paraty no dia 4 de julho, durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

Para saber mais, clique AQUI!

* O PalavrasdeBandeja apenas divulga concursos literários, sem, contudo, participar da organização da evento.

offflip 2015

Estão abertas até 24 de março de 2015 as inscrições para a 10ª edição do Prêmio Off Flip de Literatura, que oferecerá aos vencedores R$ 26 mil no total, além de estadia em Paraty durante a FLIP, passeio de escuna e cota de livros. Os textos serão avaliados por escritores de expressão no cenário literário Continue Reading

Diálogo de cores e dores

Por: quinta-feira, março 5, 2015 6

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Pequenos vestidos pendurados no teto exibem babados e laços, rendas e flores. Um deles vestirá a minha menina, que dá reviravoltas ao me escutar falando baixinho, perto do ventre: qual deles você quer? Ouço seus sussurros me pedindo para comprar o rosa, porque esta é a sua cor preferida. E eu obedeço, já faço suas vontades e vou correndo pagar pelo presente.

Farei desta vez o que deseja, mas somente desta vez. Eu explico, já educo, e ela escuta calada sem se mover, compreendendo quando digo que não quero que seja mimada. A vendedora pega o vestido escolhido, embrulha com cuidado e pergunta: é para quando? Para qualquer hora, talvez agora na volta para casa, ontem senti um arrepio, um frio na barriga, achei que era a bolsa estourando, mas não, era só ela me chamando para conversar, às vezes é assim, um diálogo de dores.

Eu carrego a sacola com a mão direita e, com a mão esquerda amparo minha barriga; desse jeito ela pode dormir mais tranquila enquanto espero o trem chegar. Mas está ansiosa, chuta para o alto, pede atenção e me faz sentir enjoos. Deslizo a mão pelo ventre e peço sossego, fique quietinha, não se assuste com tanto barulho, são apenas carros e buzinas, daqui a pouco você descansará.

Olho para meus pés inchados e logo me vejo pensando em seus pés com dedos tão miúdos que caberão na palma da minha mão, macios como veludo. O trem chega, eu me levanto e ela se ajeita dentro de mim. No banco, reclino minha cabeça, fecho os olhos e aviso que estou cansada. Em silêncio, ela faz o mesmo. O diálogo termina e só recomeça horas depois quando abro os olhos e peço: acorde!

 

imagem: Cassandra Barney

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  Pequenos vestidos pendurados no teto exibem babados e laços, rendas e flores. Um deles vestirá a minha menina, que dá reviravoltas ao me escutar falando baixinho, perto do ventre: qual deles você quer? Ouço seus sussurros me pedindo para comprar o rosa, porque esta é a sua cor preferida. E eu obedeço, já faço Continue Reading