Quando os meus ossos se abrem

Por: quarta-feira, abril 29, 2015 0

esqueleto

Está vendo estes lírios dentro de mim? Ah, como me machucam quando florescem! Meus ossos se abrem aos pouco e se quebram para darem espaço ao jardim que nasce. Das costelas, brotam copos de leite e cerejeiras que me alimentam até o inverno. Eu tenho boca-de-leão e não morro de fome tão fácil! Na primavera passada, nascia apenas flor-de-viúva, mas agora em cada canto meu há amor-perfeito. Não tenho medo das abelhas e das borboletas que se aproximam. Elas levam o pólen que minha pele transpira. No espelho, já não sou apenas um esqueleto; sou dezenas de flores atravessando uma gaiola. No início, os espinhos pressionavam meus pulmões e por muito tempo fiquei sem ar. Mas agora eles fazem parte do meu corpo e me protegem das pessoas que desejam me machucar. Ninguém sabe o que há no lugar do meu coração. As aortas estão completamente obstruídas de terra, adubo e musgo. Falei isto ao meu cardiologista, mas ele não acreditou. Depois de fazer alguns exames, confirmou o diagnóstico e prescreveu medicação: muito sol e água. Ai! Quantas flores ainda se abrirão até minha morte? E depois da morte, quantas sobreviverão sem meu sangue?

esqueleto

Está vendo estes lírios dentro de mim? Ah, como me machucam quando florescem! Meus ossos se abrem aos pouco e se quebram para darem espaço ao jardim que nasce. Das costelas, brotam copos de leite e cerejeiras que me alimentam até o inverno. Eu tenho boca-de-leão e não morro de fome tão fácil! Na primavera Continue Reading

Amendoins em alto-mar

Por: quarta-feira, abril 22, 2015 1

imigrantes 2

O menino já tinha se acostumado a morrer um pouco cada manhã sem saber se veria a noite. Aceitava o destino feito de areia quente e nada mais. O que se podia fazer com dois grandes olhos negros, uma alma cabisbaixa e mãos secas? Aguardar na fila apenas, como centenas de outros olhos, almas e mãos. Aos poucos, o barco ia se ocupando de gente assim, gente quase morta.

Ele lá, sentado, encolhido nos seus nove anos de idade, acenando o último adeus para sua mãe enquanto tossia a dor de frio e de medo. Calou-se quando alguém avisou que a viagem começaria. Se eu dormir, o medo passa? Quando aperto a minha barriga, a dor passa… Conversar sozinho sempre foi sua brincadeira mais divertida. De vez em quando, o mar respingava no seu rosto e ele achava bom sentir aquele gosto de lágrima. Fazia-o se sentir em casa.

Abriu um saquinho que estava no seu bolso e comeu três amendoins. O rapaz ao lado olhou curioso para o crac crac que o menino fazia com os dentes. Quer um? As mãos secas agora serviam amendoins. Por que ninguém dormia se a viagem era tão longa? Ele não, ele fazia questão de sonhar para ver sua mãe lhe tocar os cabelos e imaginá-la no porto, do outro lado do Mediterrâneo, sorrindo ao vê-lo voltar.

A chuva começou lenta, uma garoa para encher os copos com água doce. Ao menos não morreria de sede. Na verdade, ninguém morre de sede menino, morre de falta de esperança. Eu acho que no deserto não há esperança… Mas ela sempre me dizia o contrário, minha mãe. Naquela noite, isso não importava, ele tinha água no copo e não estava mais no deserto. E seus olhos negros agora estavam mais negros ainda porque refletiam o último céu que veriam.

O barco ia e vinha, para lá e para cá, as pessoas caíam e ele também. Vamos afundar? Me diga, moço, falta muito para o barco chegar no porto? Falta? Suas mãos procuravam outras mãos. Mãe! O saquinho de amendoim, cadê? Alguém viu? É pequeno demais o barco para tantas almas cabisbaixas. O mar não, o mar é imenso e consegue abraçar todas elas, de uma só vez.

 

 

 

*Uma homenagem aos mais de trezentos imigrantes que naufragaram no mar Mediterrâneo, ao tentarem migrar para a Europa, em 18/04/2015. Milhares de imigrantes já morreram ao fazerem esta mesma travessia.

imigrantes 2

O menino já tinha se acostumado a morrer um pouco cada manhã sem saber se veria a noite. Aceitava o destino feito de areia quente e nada mais. O que se podia fazer com dois grandes olhos negros, uma alma cabisbaixa e mãos secas? Aguardar na fila apenas, como centenas de outros olhos, almas e Continue Reading

O amor só acontece com melodia

Por: quinta-feira, abril 16, 2015 0

 

o-beijo

Nos quinze quilômetros que se estendia a vila, nenhuma mulher podia dançar. O balanço dos quadris era ritmo convidativo para uma sarjeta de abandono. Não conheci outros tempos. Desde que nasci e fui ninada no silêncio ou na oração recitada em tom baixo e sereno, nunca ouvi falar de alguma mulher que tinha cantado uma melodia herege ou que tivesse escapulido do vocabulário imposto a todas nós.

Aos quatorze anos, entrei pela primeira vez no trem que ia até a cidade. Olhei pelas janelas as árvores que eram deixadas velozmente para trás, junto com todo meu passado de criança protegida. Dentro de mim, senti um embrulho no estômago e expeli lágrimas em vez de vômitos. Eu poderia voltar? Não sabia se já sentia saudade, mas sabia que atravessava uma ponte estendida, feita de lascas de madeira podre e cipós envelhecidos.

Quando o trem parou, desci para enfrentar o frio da noite e o vento do outro lado da janela. Eu andava pelas ruas e procurava as placas que me levariam ao sepulcro, a casa da família Vieira. Ao encontrá-la, coloquei as malas no chão, aguardando que a alma prestes a abrir a porta pudesse se compadecer do meu destino. Você deve ser Cecília, disse uma senhora ao me ver. Entrei e passei a noite sozinha no quarto, pensando no que aconteceria no próximo dia.

Numa capela próxima, casei-me na manhã seguinte com o homem que conheci no altar. Durante a cerimônia, senti novamente o embrulho no estômago, mas não pude chorar. Algum dia eu o amaria? 

De volta para a casa da família Vieira, escutei uma melodia vazar pelas janelas e inebriar meus sentidos. Corri até a sala e vi um rádio ligado, tocando Entra meu amor, estou te esperando há tanto tempo, estava triste e sozinha, aguardando seu calor. Entrei com os véus nas mãos e comecei a balançar os quadris, levantando a barra do vestido para não ser desgastada, girando os braços e formando grandes sombras nos vitrais coloridos. Acendi as luminárias e dancei com meu marido até o amanhecer.

 

Imagem: Gustav Klimt

 

 

o-beijo

  Nos quinze quilômetros que se estendia a vila, nenhuma mulher podia dançar. O balanço dos quadris era ritmo convidativo para uma sarjeta de abandono. Não conheci outros tempos. Desde que nasci e fui ninada no silêncio ou na oração recitada em tom baixo e sereno, nunca ouvi falar de alguma mulher que tinha cantado Continue Reading