Eu, gato

Por: quarta-feira, maio 20, 2015 0

 

Um animalzinho tão indefeso é um rato com pelos cinza. Uma bola de fígado, coração e rim, um cálice de sangue jorrando entre os meus dentes afiados. Duas patas disformes cor-de-rosa, como se rosa fosse o seu fim. Mas é vermelho como carne fresca, dissecada numa tigela, pronta para ser lambida como leite em poça. Venha cá que a minha fome de ontem é o melhor remédio para te adormecer, como ritalina às avessas ou queimadura tão profunda que nem faz doer. Eu pulo alto, não se assuste; o medo não existe, ele é apenas um desenho animado. Se te abraço com as minhas garras, é para te proteger dos verdugos, para te alimentar com o calor do meu hálito, tão doce como você. Esta esquina é o meu reinado, onde todo rato é bem-vindo. Está vendo quanto brilho? Moro num palácio de latas de alumínio e plástico. Está sentindo meu perfume? Sou mais limpo do que os moradores daquela casa, covardes que não comem frango com as mãos. Até meus bigodes foram aparados para o nosso encontro; os seus não?

E se está agora calado, olhando-me falar com estes olhos de aceitação, não tenho escolha.

Nhac!

 

 

Imagem: “Queen Cat”, de Christina Hess

 

 

Eu, gato 3

  Um animalzinho tão indefeso é um rato com pelos cinza. Uma bola de fígado, coração e rim, um cálice de sangue jorrando entre os meus dentes afiados. Duas patas disformes cor-de-rosa, como se rosa fosse o seu fim. Mas é vermelho como carne fresca, dissecada numa tigela, pronta para ser lambida como leite em Continue Reading

A falta que você me faz

Por: quinta-feira, maio 7, 2015 0

joyce

 

Editora Nova Fronteira, 2005

Páginas: 429

Romance

Joyce Carol Oates

 

Quem já perdeu a mãe sabe o tamanho da falta que ela faz. E é sobre os significados desta perda tão significativa que Joyce Carol Oates fala neste romance.

Logo no início, a história surpreende o leitor: em 2004, na cidade de Mt. Ephraim, Gwen Eaton, a mãe de Nicole (Nikki) e Clare, é encontrada na garagem de sua casa, à beira da morte e com roupas manchadas de sangue, supostamente vítima de um assaltante. Nikki é quem encontra a mãe neste estado deplorável:

“Alguma coisa se rompeu e começou a sangrar em meu peito quando me debrucei sobre mamãe, quando vi minha mãe daquele jeito. Acontece com a gente, de um modo que nos é especial. Não há como prever, não há como nos prepararmos e não há como escapar. O sangramento não cessa durante muito tempo.”

Após o choque, Nikki e Clare, irmãs com personalidades bem distintas, tentam superar a perda tão repentina e tomar as providências burocráticas advindas da morte da mãe: o enterro, a venda da casa e a doação de pertences pessoais. Ao mesmo tempo, Nikki, a narradora quase em tempo integral, busca conhecer melhor a história materna, e acaba por descobrir que tem muito em comum com a falecida mãe, mais do que Nikki imaginava.

Clare é casada, mãe de dois filhos e aparentemente vive um casamento estável. Nikki não se amolda aos padrões sociais, tem cabelos roxos espetados, é jornalista e tem um amante casado. Mas suas personalidades parecem mudar profundamente com a morte de Gwen, como se de alguma forma, elas tivessem se tornado livres para mostrarem todas as suas facetas. Ou como se cada faceta de Gwen fosse também uma de suas filhas.

oates

Joyce Carol Oates

É uma história emocionante sobre os relacionamentos familiares e sobre as impressões (incompletas) que temos sobre outras pessoas. Além disso, a autora nos faz refletir como os choques e traumas podem nos trazer mudanças necessárias. “A falta que você me faz” é a saudade daquilo que deixamos de amar ou valorizar durante a vida e, que em algum momento determinante, reavemos para nos sentir mais vivos novamente.

oates

  Editora Nova Fronteira, 2005 Páginas: 429 Romance Joyce Carol Oates   Quem já perdeu a mãe sabe o tamanho da falta que ela faz. E é sobre os significados desta perda tão significativa que Joyce Carol Oates fala neste romance. Logo no início, a história surpreende o leitor: em 2004, na cidade de Mt. Continue Reading