O computador – escritor

Por: quinta-feira, julho 30, 2015 0

O computador - escritor

 

O conto desta semana é especial: concorre ao Prêmio Literário Brasil em Prosa, anunciado no Palavras de Bandeja em 15 de junho (Relembre AQUI!). Como um dos requisitos do concurso é a publicação do conto concorrente na plataforma da Amazon, você pode acessá-lo AQUI e lê-lo gratuitamente até 03/08/2015!

Sinopse: A invenção de um computador que cria histórias pode acabar com o destino de todos os escritores, especialmente com o de Franco, um frustrado escritor. O avanço da tecnologia faz a sociedade se questionar: Quais os limites entre a máquina e o homem?

Aproveite e tenha uma boa leitura! ;)

  O conto desta semana é especial: concorre ao Prêmio Literário Brasil em Prosa, anunciado no Palavras de Bandeja em 15 de junho (Relembre AQUI!). Como um dos requisitos do concurso é a publicação do conto concorrente na plataforma da Amazon, você pode acessá-lo AQUI e lê-lo gratuitamente até 03/08/2015! Sinopse: A invenção de um computador que Continue Reading

Uma Duas

Por: segunda-feira, julho 27, 2015 0

umaduas

 

Eliane Brum

Editora Leya

2011

178 páginas

 

Este livro não é para qualquer leitor: trata-se de uma narrativa repleta de angústia, fúria e tristeza. É assim “Uma duas”, escrito pela jornalista Eliane Brum, que conta o desastroso relacionamento entre Laura e sua mãe, Maria Lúcia.

Ora narrada em primeira pessoa por Laura ora por Maria Lúcia (e também por um narrador imparcial), a história vai intercalando o passado com o presente, de forma não linear, mas muito clara e bem construída. Mãe e filha revivem o passado de dependência uma da outra, de ódio e de afeto. Maria Lúcia é uma mulher solitária, criada por um pai rigoroso que a mantinha afastada do contato social. O medo da solidão e a imaturidade faz dela uma mãe possessiva, causando em sua filha uma profunda perturbação mental.

As duas vidas retratadas são tão intrinsecamente ligadas entre si que por vezes são uma só. Laura sente o cheiro de sua mãe o tempo todo, e Maria Lúcia pensa em sua filha com alta carga de culpa pelo tratamento que dispensou a ela durante sua vida. Um terror psicológico se desdobra nas últimas setenta páginas do livro, quando Maria Lúcia recebe um diagnóstico de câncer e recorre à filha para ajudá-la a morrer. E haja estômago para ler até o fim!

Como estreia na ficção, Eliane Brum surpreendeu muito, trabalhando com tabus nos relacionamentos mãe e filha: até que ponto parecemos com nossas mães e o quanto queremos ser diferentes delas? Em seu livro, ressaltou a grande contradição da maternidade: ser ou não ser como nossas mães. Além disso, a autora tratou com honestidade e frieza a existência de ódio onde se espera haver amor e gratidão.

Uma leitura densa e marcante que vale a pena ler (mesmo que isso nos deixe à flor da pele)!

 

umaduas

  Eliane Brum Editora Leya 2011 178 páginas   Este livro não é para qualquer leitor: trata-se de uma narrativa repleta de angústia, fúria e tristeza. É assim “Uma duas”, escrito pela jornalista Eliane Brum, que conta o desastroso relacionamento entre Laura e sua mãe, Maria Lúcia. Ora narrada em primeira pessoa por Laura ora Continue Reading

Sono

Por: segunda-feira, julho 20, 2015 0

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Haruki Murakami

Editora Alfaguara

Ilustrações de Kat Menschik

115 páginas

2015

 

“Sono” é um conto de Haruki Murakami, considerado um dos autores mais importantes da atual literatura japonesa. 

Logo no início, o leitor é surpreendido com as ilustrações belíssimas de Kat Menschik, nas cores azul, branco, preto e prata. São desenhos dotados de realismo fantástico com direito a mariposas, flores, águas-vivas, conchas e feições introspectivas da narradora. Um perfeito diálogo entre duas artes: a escrita e a ilustração.

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Quem narra a história é uma mulher de trinta anos, casada e mãe de um filho. Entediada com a rotina e sem conseguir dormir por vários dias, ela começa a buscar atividades que possam lhe trazer prazer, principalmente durante a madrugada, quando todos em sua casa estão dormindo. 

Passeios pelos portos, estradas, bibliotecas. Ela começa a visitar novos lugares, a ter desejos de ser mais livre e passa a procurar pela sua verdadeira essência. Ao olhar à sua volta, vê estranheza naquelas pessoas que antes via beleza, como em seu marido. O que realmente estava acontecendo? A insônia constante parecia mudar, aos poucos,  a forma de a narradora se colocar diante da vida.

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O sono pode ser uma fuga da realidade? E sem ele, conseguimos viver de forma lúcida? São questões que Haruki Murakami tenta desvendar neste conto aparentemente simples, mas repleto de indagações filosóficas.

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sono 1

Haruki Murakami Editora Alfaguara Ilustrações de Kat Menschik 115 páginas 2015   “Sono” é um conto de Haruki Murakami, considerado um dos autores mais importantes da atual literatura japonesa.  Logo no início, o leitor é surpreendido com as ilustrações belíssimas de Kat Menschik, nas cores azul, branco, preto e prata. São desenhos dotados de realismo Continue Reading

A vida em um dia

Por: quinta-feira, julho 16, 2015 0

galo

 

 Quando o canto começava, era hora de os sonhos terminarem. Os pés de Alfredo alcançavam o chão frio e sentiam a vida vir à tona novamente. O grito do galo o acordava todos os dias e parecia estar a dois centímetros do seu ouvido, entre as palhas secas do galinheiro. De uma só vez, empurrado pela necessidade de plantar para comer, saía de casa quando o céu ainda tinha a lua iluminando a estrada quase invisível.

Se havia tanta noite para o dia que começava, não havia tanto dia para colher tudo o que queria. A cada passo que dava, pensava no pão e na fome, e ainda na solidão de todos os anos sem alguém para ajudá-lo a carregar aquele peso. Colocava os sacos nas costas. De trigo e de tudo mais que lhe interassasse no caminho. E se encontrasse algum animal cruzando árvores, ele parava por alguns minutos só para assistir à travessia, escondido atrás de alguma planta, camuflado e em silêncio, comendo uma  fruta. Não mataria nem morreria.

Devagar sob sol ou sob chuva, era preciso seguir, mesmo com os pés machucados com feridas e calos. Quando chegasse no trigal, ficaria por alguns minutos apenas contemplando a paisagem, porque para algum bem devia servir o dom de enxergar sem aguardar nada em troca da natureza. Antes disso porém, tiraria os sacos das costas, todo o peso. Plantaria as sementes e voltaria no dia seguinte e nos outros dias que viriam para ver a plantação crescer. Se esta era sua vida, com descansos tão raros, não era assim sua forma de sonhar, repleta de pausas, até o chamado do galo.

 

Imagem: “O galo”, de Pablo Picasso

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   Quando o canto começava, era hora de os sonhos terminarem. Os pés de Alfredo alcançavam o chão frio e sentiam a vida vir à tona novamente. O grito do galo o acordava todos os dias e parecia estar a dois centímetros do seu ouvido, entre as palhas secas do galinheiro. De uma só vez, Continue Reading

Um teto todo seu

Por: sexta-feira, julho 10, 2015 0

um-teto-todo-seu-virginia-woolf

 

Editora Tordesilhas

189 páginas

2014

Virginia Woolf

Um clássico da literatura de autoria feminina, “Um teto todo seu” foi escrito em 1928 por Virginia Woolf, e é um ensaio sobre as dificuldades encontradas pelas mulheres para se tornarem escritoras, numa época em que o patriarcado ditava as regras dominantes. (Quase um século se passou, e as coisas ainda não mudaram muito, né?)

“Porque é um enigma perene a razão pela qual nenhuma mulher jamais escreveu qualquer palavra de uma literatura extraordinária quando todo homem, ao que parece, é capaz de uma canção ou de um soneto. Quais eram as condições em que as mulheres viviam?”

A autora, que enxergava muito além de seu tempo, acreditava que a literatura deveria estar aberta a todos, indistintamente, a homens e a mulheres e, sendo assim, defendia a ideia de que as mulheres deveriam ter renda própria (ao menos quinhentas libras, a seu ver) e um espaço próprio. Desta forma, elas teriam a independência necessária para trabalharem em seus livros.

Virginia Woolf faz um exercício muito curioso: se Shakespeare tivesse tido uma irmã chamada Judith, tão talentosa como ele, ambos teriam tido as mesmas oportunidades na carreira literária e teatral? Possivelmente não, é sua conclusão. (O Palavras de Bandeja já fez um exercício similar, inspirado neste livro, e você pode conferir AQUI!).

Durante o ensaio, a autora faz questionamentos sobre o tratamento dado pela sociedade às mulheres, principalmente no que se refere à falta de incentivos à educação, haja vista que os homens eram os privilegiados e únicos a ingressarem nas grandes universidades. Sem acesso à educação e à cultura, assoberbadas com os trabalhos domésticos, como poderiam as mulheres terem se tornado grandes escritoras?

Ao final do livro, Virgina Woolf premia o autor com uma belíssima reflexão:

(…) “se cultivarmos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos; se fugirmos um pouco das salas de visitas e enxergarmos o se humano não apenas em relação aos outros, mas em relação à realidade, ao céu, às árvores ou a qualquer coisa que possa existir em si mesma; se olharmos além do fantasma de Milton, porque nenhum ser humano deveria bloquear nossa visão, se encararmos o fato, porque é um fato, de que não há em quem se apoiar, e de que seguimos sozinhas e nossa relação é com o mundo da realidade e não só com o mundo de homens e mulheres, então a oportunidade surgirá, e a poeta morta que era a irmã de Shakespeare encarnará no corpo que tantas vezes ela sacrificou.”

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  Editora Tordesilhas 189 páginas 2014 Virginia Woolf Um clássico da literatura de autoria feminina, “Um teto todo seu” foi escrito em 1928 por Virginia Woolf, e é um ensaio sobre as dificuldades encontradas pelas mulheres para se tornarem escritoras, numa época em que o patriarcado ditava as regras dominantes. (Quase um século se passou, Continue Reading

Rendição

Por: quinta-feira, julho 9, 2015 0

pintura

Após retocar o quadril com tinta branca e amarela, ele resolveu criar sombras ao redor do pescoço, tudo feito com tinta a óleo. Deixou o pincel sobre a mesa e se pôs a olhar para a tela, agora um pouco mais justa com a imagem real, deitada sobre a manta no chão. Ela não parecia confortável sendo retratada sob a luz que tocava sutilmente suas pernas, e preferia a sombra que agora subia para o rosto. Assim ela podia enxergar quem estava diante de si, sem se sentir tão nua. Ou vestida apenas com as próprias mãos.  

O marrom ficaria bem nos cabelos, espalhados e finos, feitos para o exato momento em que ele cerrou as cortinas, tornando-os mais escuros do que realmente eram. É melhor sem tanta luz. Pegou novamente o pincel, moveu o cavalete um pouco para a direita e encontrou um novo ângulo no mesmo rosto cabisbaixo e imóvel. É possível uma face ter infinitas dimensões e se modificar a cada piscar de olhos ou abre-e-fecha dos lábios?

Desculpe, não quis me mover, ela falou.

Um borrão azul marinho atravessou o teto. Ele o apagou com um pouco de óleo e reiniciou o trabalho. 

Mais alguns minutos e a pintura estaria feita, acabada depois de algumas horas de rendição. Era preciso se render sem egos ou vaidades para assumir que a beleza de tudo emanava dela, e também a luz e a sombra.  Falta muito?, ela perguntou, ao sentir que a coluna doía. Ah, quanto falta! Uma eternidade.

 

Imagem: de Malcolm T Liepke

pintura

Após retocar o quadril com tinta branca e amarela, ele resolveu criar sombras ao redor do pescoço, tudo feito com tinta a óleo. Deixou o pincel sobre a mesa e se pôs a olhar para a tela, agora um pouco mais justa com a imagem real, deitada sobre a manta no chão. Ela não parecia Continue Reading