Dia de tempestade

Por: sexta-feira, setembro 25, 2015 2

remedios 2

Corro para não ser levada pela corrente que se aproxima, gritando contra a voz da água faminta que me quer. Juntos, resistimos porque somos novos e temos corpos que não cedem ao mau tempo, ao contrário da casa que já se foi à primeira ventania. Casas não têm raiz, elas nascem de qualquer lugar para o alto. Por isso, caem tão facilmente.

Vou na frente e você vem atrás, sob a chuva que não para de cair e inunda esta cidade. A rua já é um mar carregando carros, latinhas, restos de comida e tudo o que pode haver dentro do esgoto. Seguro suas mãos frias de gente que tem medo de fugir e também de ficar no mesmo lugar, e falo sobre o dia de amanhã, mesmo sem saber se haverá algum. Quando percebemos que não há mais saídas, é hora de aguardar o tempo piorar.

As árvores com raízes profundas são dilaceradas pelos raios e caem sobre os postes que navegam na corrente. Os veículos estão desgovernados, e as pessoas também. Quem elas serão sem todas as coisas que a chuva levou? Ao menos, tenho você, e você tem a mim, e conseguimos nos reconhecer inteiros e intactos mesmo neste dia de tempestade. 

 

Imagem: “Os amantes” , de Remedios Varo

Remedios Varo

Corro para não ser levada pela corrente que se aproxima, gritando contra a voz da água faminta que me quer. Juntos, resistimos porque somos novos e temos corpos que não cedem ao mau tempo, ao contrário da casa que já se foi à primeira ventania. Casas não têm raiz, elas nascem de qualquer lugar para Continue Reading

Não olhe!

Por: quinta-feira, setembro 17, 2015 2

nao olhe

 

No corredor do hotel, ouvi um casal que brigava; ele perguntava por que ela o deixava por outro homem, e ela tentava explicar o inexplicável, que o amor havia acabado e agora só restavam duas pessoas sem razão para continuarem juntas. Primeiro, foi ao chão o abajur, depois a mala que estava sobre a mesa, a garrafa de vinho, os copos, o telefone e a televisão. Ele foi ao chão e gritava: o que vão pensar de mim? Que sou um homem fraco e traído pela única mulher que amou, que sou um fracassado de chifres, um perdedor, e é tudo culpa sua, Ruth, tudo culpa sua! Saia daqui e vá atrás dele, vá dizer o quanto me fez infeliz.

Eu os via pela fechadura da porta, que brilhava no corredor escuro sem gente nem lâmpadas acesas. Ela chorava e dizia que não havia culpados, enquanto tentava recolher os cacos de vidro espalhados. Ele sussurrava pelos cantos, andava de um lado para o outro, colocava algumas roupas numa sacola e se preparava para sair, como se fugisse de um terremoto prestes a derrubar o hotel. Não tem compaixão? Nem um pouco? Ela se recostou na parede coberta por um papel de parede de flores bege com fundo cinza, e olhou para baixo, para o carpete que não lhe devolveu respostas ou saída para aquela situação.

Ruth, está me escutando? Ela calada, passando os dedos pelos cabelos, chorando, perguntou: você quer voltar para mim? Com os olhos assustados, ele deixou a sacola que carregava no chão, levantou uma cadeira, sentou-se e respirou profundamente. Eu ansiava por aquela resposta do outro lado da porta – mais do que ela, a mulher envolta das flores beges. Quer ou não quer voltar para mim?, ela repetiu. Que pergunta mais tola, Ruth! E acha que eu ficaria com você sem ser amado, dia após dia, engolindo a seco este seu amante só para o mundo não saber que sou um homem traído? A saliva estava presa na minha garganta.

Eles se olharam. Ela limpou a bagunça em alguns minutos, enquanto ele retirava da sacola as roupas e as guardava dentro do armário. Em silêncio, ele se vestiu com um pijama e foi dormir.

 

Imagem: Daniel Galieote

 

 

nao olhe

  No corredor do hotel, ouvi um casal que brigava; ele perguntava por que ela o deixava por outro homem, e ela tentava explicar o inexplicável, que o amor havia acabado e agora só restavam duas pessoas sem razão para continuarem juntas. Primeiro, foi ao chão o abajur, depois a mala que estava sobre a Continue Reading

O Sol e o Peixe

Por: quinta-feira, setembro 10, 2015 0

O Sol e o Peixe

 

Virgínia Woolf

Autêntica editora

2015

112 páginas

 

Ler este livro é se surpreender a cada parágrafo porque nada, absolutamente nada é clichê ou previsível. Eu não tinha ideia de que nesta semana leria o melhor livro da minha vida, repleto de uma prosa poética, sincera e profunda. Tive a certeza, ao terminar a leitura, de que Virgínia Woolf havia se tornado a minha escritora preferida (e me perguntei, estranhamente: por que ela ainda não preenchia esta posição na minha vida?).

O livro é composto por ensaios sobre diversos temas: a cidade de Londres, o cinema, a leitura, um eclipse… E todos têm uma marca muito forte: o impressionismo, caracterizado pela abordagem sensorial detalhista, retratada principalmente no ensaio homônimo ao livro, no qual a autora fala sobre sua impressão do eclipse total do sol de 29 de junho de 1927, previsto para durar apenas vinte e quatro segundos. É a visão deste acontecimento natural que Virgínia Woolf descreve, ressaltando os instantes em que as nuvens e o sol brigavam para aparecer no céu.

Agora estava à vista e vivo; agora, encoberto e sumido. Mas sempre se podia senti-lo voando e avançando através da escuridão em direção à sua meta. Por um segundo, ele emergiu e mostrou-se para nós através de nossos óculos, um sol escavado, um sol crescente.

No ensaio “A paixão da leitura”, a autora discorre sobre o prazer de ler, demonstrando sua complexidade. Para ela, a primeira obrigação do leitor é ler como se ele próprio tivesse escrito o livro:

Para começar, devemos nos sentar no banco dos réus e não na poltrona do juiz. Devemos nesse ato de criação, não importa se bom ou ruim, ser cúmplices do escritor. Pois, cada um desses livros, não importando o gênero ou a qualidade, representa um esforço para criar algo.

Cada escritor é singular e tem a sua própria visão de mundo, formada por experiências e pensamentos que podem ou não colidir com os nossos. E aqueles que colidem conosco (e nos violentam de certa forma) são os que mais têm para nos oferecer e, por isso, precisamos de imaginação e compreensão para entendê-los. Durante a leitura, o julgamento fica suspenso, contudo, no momento pós-leitura, o leitor se torna juiz e julga o mérito do livro. Fazendo isso (lendo e julgando), contribuímos para os melhores livros permanecerem no mundo. Mas a verdadeira razão pela qual lemos é uma só: ler dar prazer! “Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo”.

 

O sol e o peixe 3

  Virgínia Woolf Autêntica editora 2015 112 páginas   Ler este livro é se surpreender a cada parágrafo porque nada, absolutamente nada é clichê ou previsível. Eu não tinha ideia de que nesta semana leria o melhor livro da minha vida, repleto de uma prosa poética, sincera e profunda. Tive a certeza, ao terminar a Continue Reading

Aos refugiados

Por: quinta-feira, setembro 3, 2015 0

Aos refugiados

 

 

Enquanto as águas do mundo se enchem de corpos sem esperança e sem casa, lotados de mortos, a humanidade continua a andar e a fazer a rotina de todos os dias – acordar, trabalhar, comer e dormir. Exceto pelo trabalho, qual seria a diferença entre adultos e recém-nascidos? Choramos apenas quando dói o nosso corpo ou também quando dói o corpo de outra pessoa?

E o quanto de dor no corpo do próximo é necessário para derramarmos lágrimas? É a dor suficiente para provocar dor no estômago, nos pulsos, no rim. É quando dói tanto que de repente tudo para e é possível ouvir o ruído circulando na consciência mandando que façamos silêncio. Somente assim fechamos os olhos para enxergar como cegos, tateando e sentindo o que nos rodeia. Os olhos enganam quem confia apenas neles: a morte não é apenas um corpo flutuando na água; a morte também é vida que sequer flutua e fica inerte na terra.

Se está aparentemente longe o conflito e a guerra, está perto a água que sustenta os corpos esquecidos. Tão perto que bate em nossos pés quando a onda quebra na praia trazendo a tristeza dos afogados em cada molécula de água salgada. E estas moléculas também estarão dentro de nós cada vez que comermos um peixe de mar que carrega os sonhos daqueles refugiados. Os peixes nos farão bem, porque nunca deixarão o ruído desaparecer, nos mantendo sempre acordados.

 

Aos refugiados

    Enquanto as águas do mundo se enchem de corpos sem esperança e sem casa, lotados de mortos, a humanidade continua a andar e a fazer a rotina de todos os dias – acordar, trabalhar, comer e dormir. Exceto pelo trabalho, qual seria a diferença entre adultos e recém-nascidos? Choramos apenas quando dói o Continue Reading