Hibisco roxo

Por: segunda-feira, outubro 26, 2015 0

Hibisco Roxo

Hibisco roxo

Shimamanda Ngozi Adichie

Paginas: 328

Companhia das Letras

2011

 

A minha expectativa quanto a este livro era desde o princípio muito grande! Eu havia assistido ao vídeo da palestra sobre o perigo das histórias únicas, proferida pela autora de “Hibisco roxo”, Shimamanda Ngozi Adichie, e fiquei encantada. Durante a palestra (assista AQUI), ela narra suas dificuldades no início da vida adulta, após sair da Nigéria e ir morar nos Estados Unidos. Ela relata que, à época, os americanos imaginavam a Nigéria de um jeito único – pobre e tribal –, sem conhecimento, portanto, das várias facetas daquele país. “Hibisco roxo” tem muito a ver com esta palestra.

O livro é narrado em primeira pessoa pela adolescente Kambili, filha de Eugene, um pai extremamente rígido e católico, e de Beatrice, esposa submissa. A narradora é controlada pelo pai a cada passo que dá e lhe são cobradas sempre as melhores posições na escola. Ela é silenciosa, contida, comportada, sozinha. E muito triste. Com o irmão, Jaja, ela consegue se comunicar pela “língua dos olhos”, pois poucas palavras são autorizadas dentro de casa. A mãe é afetuosa, mas também sofre com a rigidez que é imposta por Eugene a todos os integrantes da família.

Shimamanda

Olha que linda a Shimamanda Ngozi!

Kambili conhece uma história apenas: a sua. Ela não tem amigos e tem pouco contato com outros integrantes da família como o avô (considerado pagão por Eugene). O mundo lhe parecia pequeno até que sua tia Ifeoma a convida para passar alguns dias em sua casa, nas férias, junto do irmão Jaja. Lá, a narradora conhece outras histórias – a de seus primos, de sua tia, do seu avô, e de vizinhos. Ela percebe que há várias formas de vida, religião, línguas e famílias e, principalmente, que são todos seres humanos em posição de igualdade e não de hierarquia. Na casa de sua tia, longe do controle (e da violência física e moral) do seu pai, Kambili começa a sorrir e a se expressar.

No decorrer da história, a escritora nos apresenta a realidade política e cultural da Nigéria, expandindo e modificando nossa visão sobre este país. E é exatamente este processo – de expansão da consciência – que acontece também com Kambili.  O livro leva à reflexão sobre o domínio das religiões (e o perigo do fanatismo), a liberdade de expressão, o colonialismo, a violência contra a mulher e os estereótipos sociais. É um livro surpreendente, que levanta temas necessários e polêmicos. Recomendo muitíssimo!

 

 

Hibisco Roxo

Hibisco roxo Shimamanda Ngozi Adichie Paginas: 328 Companhia das Letras 2011   A minha expectativa quanto a este livro era desde o princípio muito grande! Eu havia assistido ao vídeo da palestra sobre o perigo das histórias únicas, proferida pela autora de “Hibisco roxo”, Shimamanda Ngozi Adichie, e fiquei encantada. Durante a palestra (assista AQUI), Continue Reading

A sete palmos

Por: quinta-feira, outubro 22, 2015 0

casal de esqueletos

 

 

Ele tentou abrir os olhos, mas percebeu que estava todo encoberto de terra. As pálpebras não conseguiam se movimentar debaixo de tanto peso. Girou a cabeça para a esquerda, e notou os ouvidos se encherem de terra. Abriu as mãos e esticou os dedos. Estava vivo. Abriu a boca para gritar, mas sentiu, pela primeira vez, o gosto de raiz molhada, de musgo, folhas e vermes. Engoliu tudo o que não conseguiu pôr para fora e depois prendeu os lábios.

Como ainda estava vivo? Ainda lhe doíam as vértebras quebradas, a dor na consciência, o orgulho ferido – não sabia qual destes ferimentos lhe penalizava mais. Sentiu a pele comida, o sangue seco, a vida que já tinha cessado. Em que tinha se transformado? Teve medo de si mesmo. A língua seca pedia água e o impelia a se levantar. Contudo, lembrou-se de como fora enterrado naquele lugar e sentiu vergonha. Decidiu ficar ali mesmo, deitado, escondido com os vermes.   

Se pudesse gritar, chamaria pelo nome dela. Se pudesse ter uma segunda chance, faria tudo de novo. Repetiria os mesmos erros. Mataria e trairia por ela. E, por ela, segurou firme na raiz molhada e a engoliu aos poucos, até chegar no solo, de onde emergiu como árvore velha e podre, mas ainda viva. Caminhou por algumas horas ao redor do terreno baldio, com os pés esqueléticos e descalços, até encontrar um bando de corvos. Ela está aqui, disseram com os olhos, enterrada a sete palmos.

Os corvos observavam aquelas mãos esverdeadas cavando a terra, agonizando para tocar outras mãos. E quando finalmente se tocaram, veio uma rajada de vento forte e esparramou os corpos dos dois amantes pelo campo, dividindo-os em várias partes feitas de ossos e restos de pele.

Assim ficaram em paz.

 

esqueleto romance 3

    Ele tentou abrir os olhos, mas percebeu que estava todo encoberto de terra. As pálpebras não conseguiam se movimentar debaixo de tanto peso. Girou a cabeça para a esquerda, e notou os ouvidos se encherem de terra. Abriu as mãos e esticou os dedos. Estava vivo. Abriu a boca para gritar, mas sentiu, pela primeira Continue Reading

As duas irmãs

Por: sexta-feira, outubro 9, 2015 0

 

as-duas-irmas

Estavam tão sozinhas que não sentiam medo, como se não houvesse perigos mais assustadores do que a solidão. Acreditavam que naquela noite alguém apareceria com um copo de leite e alguns pães na mão, desculpando-se pelo enorme atraso. Mas enquanto o socorro não vinha, elas eram apenas duas sereias prestes a roubar navios e grandes tripulações, nas poças de água que se formavam em todos os cômodos da casa.

Eram tão iguais como dois espelhos que se refletiam infinitamente. Se uma delas variava de cor, ruborizando as bochechas ou se embranquecendo de frio, a outra fazia o mesmo sem querer, ainda que estivessem separadas por quilômetros de distância. Dormiam na mesma cama como dois caramujos, uma para cada lado, enroladas no cobertor. Há dias que somente comiam durante os sonhos. Dormir era a melhor refeição.

Cantavam para atrair quem as quisesse levar para outro mundo, pela janela, rua ou calçada. Órfãs de pais vivos, continuavam a viver protegendo o maior tesouro: a companhia que tinham uma da outra. Fingiam que eram mãe e filha ou duas mães procurando por alguma filha perdida. Esperavam que algum desconhecido batesse à porta, antes que a poça secasse e tivessem que se retirar do mar.

Se cresceram, não resistiram às grandes ondas. Caso contrário, ainda são sereias a cantar, ou simplesmente duas meninas de rua, em alguma calçada ou grande avenida.

 

Imagem: Isabelle Bryer

as-duas-irmas

  Estavam tão sozinhas que não sentiam medo, como se não houvesse perigos mais assustadores do que a solidão. Acreditavam que naquela noite alguém apareceria com um copo de leite e alguns pães na mão, desculpando-se pelo enorme atraso. Mas enquanto o socorro não vinha, elas eram apenas duas sereias prestes a roubar navios e Continue Reading