Liberdade

Por: quinta-feira, novembro 26, 2015 0

liberdade 2

Era como se as balas já tivessem me acertado, fazendo um grande rombo no meu peito. Talvez eu tivesse nascido assim, baleada. Mas o homem de camisa branca com estampa dos Beatles e com a arma apontada para minha cara não sabia disso. Nem a senhora tremendo compulsivamente ou a garota tatuada com cabelos vermelhos.

Éramos três corpos apertados num cubículo sem ar. 

Quanto tempo havia se passado? Vinte minutos ou duas horas. Eu era o restante da vida que não tinha vivido e justamente neste resto é que me encontrava mais viva.

Os Beatles saíram da sala. Pude levantar a cabeça e olhar para os cavalos dóceis e silenciosos no quadro pendurado na parede. Os cavalos tinham embocaduras como o tecido que tampava minha boca (preto, com gosto de poeira) e que me impedia de gritar. Pobres animais! De repente, conseguia ver que a docilidade era a única alternativa para aqueles com freios nas bocas.

A corrente se movimentava. Estou te desamarrando, a garota falou. Ga-ga-ga, eu era uma mulher ansiosa por falar. As minhas mãos estavam livres e quentes novamente! Ao cuspir o tecido da  boca, disse a primeira palavra que veio à mente: Obrigada. Desatei a chorar como uma criança e não havia ninguém mais no mundo chorando além de mim.

Tinha o resto da vida em minhas mãos. Podemos sair da sala? Há alguém à nossa espera? Ah, dúvida maldita! Por que quisemos ser livres tão cedo? Os Beatles abriram a porta e estão de volta, olhando-nos com uma risada nervosa. Por que não nos avisaram que a liberdade era perigosa? Não se mexam, não falem, não reajam, finjam-se de mortos. Era tudo o que eu queria dizer. Que voltem as embocaduras, as amarras de tecido baratas, a docilidade do mundo! É para isso que todas elas servem, para nos salvar da morte.

liberdade 2

Era como se as balas já tivessem me acertado, fazendo um grande rombo no meu peito. Talvez eu tivesse nascido assim, baleada. Mas o homem de camisa branca com estampa dos Beatles e com a arma apontada para minha cara não sabia disso. Nem a senhora tremendo compulsivamente ou a garota tatuada com cabelos vermelhos. Éramos três corpos apertados Continue Reading

A mulher vitruviana

Por: segunda-feira, novembro 23, 2015 0

mulher virtruviana

 

A mulher vitruviana

Edna Rezende

Ensaios autobiográficos

175 páginas

Editora Penalux

 

Relatos autobiográficos norteados por simplicidade e delicadeza sempre me conquistaram, e, com “A mulher vitruviana” não foi diferente. Exatamente porque é difícil dosar a profundidade daquilo que realmente se viveu, e do que é real e verdadeiro (e não uma ficção), que admiro tanto os autores que escrevem este tipo literário.

É a partir dos elementos fundamentais da arquitetura identificados por Vitruvius que Edna Rezende traça sua trajetória: firmitas (assegurada quando as fundações são levadas até o solo firme), utilitas (o arranjo das partes é perfeito) e venustas (quando a aparência da obra é agradável e elegante).  Sua biografia é envolta de fumaça (desde muito moça era viciada em cigarro), costumes do interior de Minas Gerais e, principalmente, a audácia de uma mulher que nem sempre se encaixava nos estereótipos femininos da época.

Construindo relações surpreendentes com o desenho de Da Vinci, o qual representa o conhecimento  e a autorrealização espiritual, a autora relata momentos de satisfação ao viver o hábito de fumante, ao mesmo tempo em que ressalta as marcas culturais do seu tempo, seja no cinema, literatura e psicologia, dando ao leitor um painel farto de citações valiosas. Deu vontade de assistir a todos os filmes citados, principalmente os de Verônica Lake (e checar o visual da atriz!):

veronica Lake

Veronica Lake

“Se uma menina brasileira, do interior, imitava Verônica Lake, imagine-se o que ocorria nos Estados Unidos. A mecha de cabelos era tão usada que a Comissão de Relações Humanas de Guerra pediu à atriz que mudasse o penteado, antes que ocorressem graves incidentes nas fábricas, pois, com olhos tapados, as operárias fatalmente perderiam as mãos…”

É uma biografia com vários altos e baixos. Se num momento, a sofisticação e beleza vibravam entre festas e saias de seda; em outro, o que se via era a pobreza e suas dolorosas dificuldades. Se num capítulo a autora sofre um acidente de carro que a deixa muito ferida, mais tarde, ela se ergue para tomar nos braços a alegria de ganhar a primeira neta. Não tiveram muita importância as doenças, mortes ou a pobreza, porque a riqueza dos relacionamentos humanos estava sempre presente:

“ A verve da menina demonstrou, com mais clareza, que eu estava doente. Não conseguia andar com ela no colo, por muito tempo. Sobrava-me entusiasmo e desejo de ajudar, mas faltava-me o ar. Era como se uma toalha de plástico envolvesse meus pulmões e eu ficava ali, a precisar de ajuda para ajudar. Por qualquer esforço, tossia muito, envergonhada. Bronquite e bebê não combinam”.

É um livro para refletir sobre hábitos: o de fumar e o de amar. E me parece que o segundo foi mais forte nesta história.

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  A mulher vitruviana Edna Rezende Ensaios autobiográficos 175 páginas Editora Penalux   Relatos autobiográficos norteados por simplicidade e delicadeza sempre me conquistaram, e, com “A mulher vitruviana” não foi diferente. Exatamente porque é difícil dosar a profundidade daquilo que realmente se viveu, e do que é real e verdadeiro (e não uma ficção), que Continue Reading

Prêmio Campos do Jordão de Literatura – 2015

Por: quarta-feira, novembro 18, 2015 2

 

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Conto premiado no Concurso Campos do Jordão de Literatura – 2015
3º lugar
 

Duas Palavras

 

A primeira vez que Gilberto entrou no quarto de Adélia, surpreendeu-se com as paredes. Havia centenas de palavras rabiscadas nelas. “Os homens sempre deixam duas palavras para mim, antes de deixarem meu quarto”, ela explicou. Era um costume que se dava em todos os quartos daquela casa e também nas redondezas. Ninguém sabia como todos haviam se adaptado àquela prática. Ele nada disse e, alvoroçado, despiu-se rapidamente, embriagado com o cheiro de canela que se esparramava pelo ambiente.

Sobre a cama, unidos num só, ele imaginava as palavras que escreveria. Ao suspirar o último gemido no ouvido dela, após tantos outros, ele fez um pedido: “Quero escrever as duas palavras nos seus seios”. Ela concordou e logo abriu o armário para procurar a caneta. Gilberto marcou os seios da moça, desenhando cada letra com o cuidado que aquela pele merecia. Adélia sentia a tinta fria, quase dolorida, penetrando em seus poros. “Amanhã, volto para te ver”, despediu-se.

Enquanto o tempo resistia à força do desejo de Adélia, ela olhava para cada palavra rabiscada nas paredes e se sentia sozinha, como se nunca houvesse sido mulher de alguém, e como se ninguém tivesse sido dela até então. No espelho, Adélia viu refletida uma palavra em cada seio e, no banho, protegeu-as da água devastadora. Sentia as letras tatuadas na sua pele, ardendo com uma força que ela não imaginava que pudessem exercer.

Gilberto voltou uma semana depois e, dessa vez, foi ela quem pediu a ele que a deixasse escrever em seu corpo. “Quero escrever em suas coxas”, ela disse. Ele discordou por quase um segundo, mas cedeu. Ela escreveu a primeira palavra na coxa esquerda dele e, depois, na direita. Imprimia com força a tinta na pele, que era para ela não se esvair com o tempo, com qualquer troca de roupa ou beijos de outra moça.

No dia seguinte, Adélia não quis receber as visitas de sempre. Não desceu para o salão lotado de gente, não cantou nem bebeu. Comeu algumas fatias de pão ao meio dia e, às cinco horas da tarde, deitou-se na cama para aguardar Gilberto. Às oito da noite, ele entrou no quarto sem pedir permissão, beijou-a como não tinha feito ainda e, antes mesmo de se deitar, empossou-se da caneta e escreveu nos lábios da Adélia as mesmas duas palavras que havia escrito em seus seios. Ela retirou a caneta dos dedos de Gilberto e fez o mesmo nos lábios dele. Naquela noite, eles adormeceram juntos e sonharam que suas peles estavam manchadas como as paredes. 

Adélia acordou com o cheiro de café que vinha do salão, misturado à canela. Gilberto já não estava ao lado dela e havia deixado o quarto, em busca de outras andanças. Por alguns instantes, ela permaneceu na cama, imaginando se ele havia se banhado, se a tinta dos lábios dele havia se escorrido com a água quente do chuveiro. As duas palavras que Adélia escrevera estariam agora no fundo do ralo, perdidas entre cabelos molhados e esquecidos.

Levantou-se, desceu as escadas e pediu um balde com água e sabão. Sozinha, lavou as paredes de seu quarto com espuma, até que não restasse uma só palavra. Lembrou-se do que escrevera nas coxas do homem que nunca mais veria: Meu homem. Ela se olhou novamente no espelho e leu, em voz alta, as duas palavras que seu corpo mostrava, antes que fossem apagadas pela espuma que tinha nas mãos: Minha mulher. Daquele dia em diante, era Adélia quem escrevia nas paredes do seu quarto, preenchendo o vazio do branco com inúmeras palavras. Suas palavras e de mais ninguém.

 

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  Conto premiado no Concurso Campos do Jordão de Literatura – 2015 3º lugar   Duas Palavras   A primeira vez que Gilberto entrou no quarto de Adélia, surpreendeu-se com as paredes. Havia centenas de palavras rabiscadas nelas. “Os homens sempre deixam duas palavras para mim, antes de deixarem meu quarto”, ela explicou. Era um Continue Reading

Das entranhas para a pele e vice-versa

Por: quinta-feira, novembro 12, 2015 0

Entranhas

Eu não sabia que o sangue podia ser tão vermelho e brilhante quando vi a minha pele cortada, e conheci, pela primeira vez, o que era a dor da carne. O corte era profundo, mostrando-me como eu era dentro de mim, as várias camadas que me protegiam das outras dores que já havia experimentado. Lá no fundo, no meio de tudo, não sei se havia ossos ou se era apenas a vontade de ser mais dura do que leve, quando a escuridão se aproximou e ainda não fazia efeito a anestesia.

Na infância, tudo parece ser tão grande que é difícil dizer com certeza se o tamanho do ferimento coincide com a lembrança que tenho dele, mas acontece que a minha realidade sempre coincidiu com o tamanho das minhas experiências, e é exatamente por isso que não acredito na loucura – cada um vive a realidade que tem. E se eu gritava pedindo socorro porque doía tudo em mim, é porque era real a dor que chegava até as entranhas.

Quando olho para a cicatriz na minha coxa e me lembro da linha na pele, costurando-a ponto a ponto, unindo as duas partes que me deixaram descoberta por algumas horas, penso que quatro anos de idade é o suficiente para se conhecer a dor mais fácil de ser remediada. Já as outras dores, que começam das entranhas e vão até a pele (e não ao contrário), só as conheci anos mais tarde, quando a vida me mostrou de que nada adiantava tantas camadas.

 

Imagem: Mark Ryden

Entranhas

Eu não sabia que o sangue podia ser tão vermelho e brilhante quando vi a minha pele cortada, e conheci, pela primeira vez, o que era a dor da carne. O corte era profundo, mostrando-me como eu era dentro de mim, as várias camadas que me protegiam das outras dores que já havia experimentado. Lá Continue Reading