Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende

Por: quinta-feira, janeiro 28, 2016 3

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Quarenta dias

Maria Valéria Rezende

Editora Alfaguara

Romance

 

Livro premiado como o melhor romance de 2015 pelo Prêmio Jabuti, “Quarenta dias” surpreende a cada linha com as aventuras de Alice, uma paraibana que se muda para Porto Alegre, sob pressão de sua filha Norinha.

Em uma cidade estranha, sem amigos e sem se sentir à vontade, Alice começa a escrever suas experiências cotidianas num caderno com a capa da Barbie, criando um diálogo com a boneca e, ao mesmo tempo, um diário detalhista. Para Barbie, Alice conta toda a sua história: o motivo pelo qual se mudou para Porto Alegre – para ser uma espécie de “avó profissional” que cuidaria do neto (filho de Norinha prestes a nascer), a saudade que sente da sua terra natal, a solidão (agravada pela mudança de Norinha para o estrangeiro a fim de fazer um mestrado) e as andanças à procura de Cícero, um rapaz da Paraíba, desaparecido em Porto Alegre.

Embora não o conheça e nem tenha laços de amizade ou parentesco com Cícero, Alice desbrava a cidade à procura do rapaz, como se isso desse um real sentido à sua vida. Favelas, bibocas, hotéis, bares, igrejas, casarões abandonados. A cada esquina, Alice descobre os encantos do Brasil, o país das Maravilhas.

O enredo é construído nas ruas de Porto Alegre, onde Alice passa a morar (mesmo tendo um apartamento à sua disposição), vivendo como mendiga. Dorme em sofás sujos abandonados, toma banho na rodoviária da cidade, carrega todas as suas roupas numa mochilinha infantil. Uma fuga inóspita à realidade que não quer enfrentar. Faz amizades com moradores de rua, cada qual com a sua história particular, e que ganham codinomes de Chapeleiro Maluco, coelho e Rainha de Copas, numa alusão à fantasiosa história de Lewis Carroll.

A linguagem é coloquial e lírica. As palavras escolhidas dão um tom poético (e rimado) às frases. É focada no vocabulário regional, tanto da Paraíba quando do Rio Grande do Sul, e trata as diferenças culturais entre os dois estados de uma forma bem humorada.

Aos olhos de alguns leitores, Alice pode parecer louca, perdida na ausência de objetivos concretos na vida. Mas é exatamente esta “loucura” que a salva da solidão, que a ajuda a sobreviver e a enxergar uma razão para viver longe de sua terra natal. E quem não se vê um pouco na Alice de Lewis Carroll e na Alice de Maria Valéria Rezende, em busca de lugares dentro e fora de si para se encontrar?

 

 

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Quarenta dias Maria Valéria Rezende Editora Alfaguara Romance   Livro premiado como o melhor romance de 2015 pelo Prêmio Jabuti, “Quarenta dias” surpreende a cada linha com as aventuras de Alice, uma paraibana que se muda para Porto Alegre, sob pressão de sua filha Norinha. Em uma cidade estranha, sem amigos e sem se sentir Continue Reading

Mar de lã

Por: quinta-feira, janeiro 14, 2016 0

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Demora o ponteiro que passa do seis e nunca chega no sete. Quantas horas ainda faltam? Quando ele volta, a pele de Soraia se revigora. Cria brilho de gente que ganha casa nova com tudo o que tem direito, geladeira, fogão, cama King Size e chuveiro quente.

Ele chega vestido com pulôver de ondas lã azul royal e até cheiro de sal ela sente quando abraça aquelas ondas e pensa em ficar ali, no abraço sem fundo que nem mergulhador caçando tesouro naufragado. Pelos-espinhos cobrem a pele da namorada-ouriço solta na rua à procura do mar. Mas se sente perfume doce é briga e roupa rasgada, não me toca, chega pro lado, aqui não tem beijo nem amasso, dorme nervosa, sozinha no quarto. Pra que tanto, Soraia?

Passa a semana emburrada, dentro do banheiro escondida, quando acorda não tem nem bom-dia, se ele elogia não recebe obrigada. Não tem perdão a traição justo com o pulôver que ela tinha comprado (tão caro). Não tem namoro com homem que não presta. Não tem chororô. Mas quando ele volta, ela pula no mar de lã, nem sente a maré contra, nada sem fôlego e nem pensa no amanhã frio de pernas e braços cansados.

 

Imagem: Nicoletta Tomas Caravia

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Demora o ponteiro que passa do seis e nunca chega no sete. Quantas horas ainda faltam? Quando ele volta, a pele de Soraia se revigora. Cria brilho de gente que ganha casa nova com tudo o que tem direito, geladeira, fogão, cama King Size e chuveiro quente. Ele chega vestido com pulôver de ondas lã Continue Reading

Sem vista para o mar

Por: quinta-feira, janeiro 7, 2016 0

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Sem vista para o mar

Carol Rodrigues

Contos

2014

124 páginas

Editora Edith

 

Foi com este livro de estreia na literatura, “Sem vista para o mar”, que Carol Rodrigues levou o Prêmio Jabuti 2015 e o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional 2015. Em 21 contos, a autora traça rotas de fuga pelas estradas do Brasil e no interior de cada personagem. A sua matéria-prima é o cotidiano, bem como a linguagem e os relacionamentos contemporâneos.

Strass, guardanapo do pateta, forró, caminhões que cruzam postos na rodovia, óculos de sol, cultura pop. Tudo é objeto de sua atenção. Há referências estrangeiras, mas a temática tem foco nacional e muitas vezes regionalista. A narrativa é poética e quase faz o leitor se esquecer de que está lendo um conto, e não uma poesia ritmada.  É uma prosa enxuta e sem vírgulas. 

As histórias fogem completamente do clichê e têm fins inesperados.  O conto que leva o título do livro fala de um menino que fica cego de tanto ver o sol, enquanto come um milho verde na praia. Com medo de contar à mãe o que está acontecendo, finge que vê aquilo que ele somente sente ou toca. 

A leitura de “Sem vista para o mar” traz à tona uma salada de sentimentos. Ao mesmo tempo em que apresenta cenas dramáticas e tristes permeadas de preconceito, Carol Rodrigues também é capaz de fazer uma lista de produtos para festinha de criança com muito bom humor. A autora declarou para o jornal Folha que já está escrevendo o seu segundo livro – Maus modos. E mal posso esperar!

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  Sem vista para o mar Carol Rodrigues Contos 2014 124 páginas Editora Edith   Foi com este livro de estreia na literatura, “Sem vista para o mar”, que Carol Rodrigues levou o Prêmio Jabuti 2015 e o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional 2015. Em 21 contos, a autora traça rotas de fuga pelas estradas Continue Reading