Costura-se amor

Por: quinta-feira, fevereiro 18, 2016 2

costura-se amor

 

Os olhos arregalados e brilhantes seguiam o caminho da linha, cheio de curvas a terminar na barra do vestido. A agulha da máquina não se cansava de tamanho esforço, nem os dedos se deixavam abalar pelos calos à vista. Dentro da sala, Cora estava silenciosa com o tecido na mão, acanhada dentro de sua mente, aguardando o exato momento do nó, o fim do caminho. Então, uma tesoura era sacada de não sei onde e apontada para o ar, como arma em filme de faroeste, pronta para atirar à queima roupa.

A barra da saia medida por Cora era feita de renda sensível a gestos abruptos, podendo se desmanchar toda com qualquer trato equivocado. Não era diferente da costureira que a manuseava, cuja pele parecia também fabricada em renda,  negra e tão delicada. Enquanto tateava a saia para iniciar a simbólica cirurgia, já com a tesoura nas mãos, leu na etiqueta pregada Made in China.

Passou os dedos entre as orelhas e jogou os cachos dos cabelos para trás. Tinha sobre a mesa um pedaço do oriente, uma parte da memória de seu antigo amor, o destino cortado pela costura da vida. Quis voar até o amado chinês e atravessar muralhas. Imaginou o seu corpo leve, rodeando o pescoço dele, tentando dizer baixinho: eu te perdoo, sinto sua falta, você não? Ele diria a ela: por que me visita se não pode ficar?

Onde está Cora?, perguntou a costureira mais velha. O corpo de Cora já estava lá, na esquina, desmanchado como o cigarro que fumava, virando cinza e sendo tocado pelo vento, jogado no cimento depois de ser usado. Onde está Cora? Ela não está aqui e nem em outro lugar, está à procura de um buraco negro para lhe levar ao passado, atravessar o tempo, colocando-se no exato momento em que foi tirada a fotografia. Relembra o flash, a luz tão profunda que fez suas pupilas se fecharem. Dois corpos, uma negra e um amarelo.

 

Imagem: Dispersed” by Tamara Natalie Madden

 

costura-se amor

  Os olhos arregalados e brilhantes seguiam o caminho da linha, cheio de curvas a terminar na barra do vestido. A agulha da máquina não se cansava de tamanho esforço, nem os dedos se deixavam abalar pelos calos à vista. Dentro da sala, Cora estava silenciosa com o tecido na mão, acanhada dentro de sua Continue Reading