Manual para criar pássaros de madeira

Por: quinta-feira, março 31, 2016 0

passaro de madeira

 

Depois de avisar por cinco vezes que já eram dezoito horas, o cuco voou pela sala, pousou na mesa de jantar e saiu bicando as migalhas de pão. Não tinha penas ou olhos como outros de sua espécie. As pequenas pernas de cedro quase inflexíveis deixavam para trás lascas de madeira ao passarem perto da faca afiada de carne, desviando-se das minhas mãos mexendo os talheres, copo e prato. A pose imóvel enganava as visitas (poucas)  sobre sua real condição. Fingia não ver nem ouvir. Fingia não ser. Fingia não voar. Só era verdadeiro se estava sozinho comigo, quando então começava a cantar como ave livre e solta.

Foi eufórica a descoberta daquele ser inanimado que adorava grãos. O susto durou alguns dias até me acostumar a ter em casa alguém para dividir as refeições. O cuco gostava de subir no lustre e ficar pendurado nas cortinas até algum vizinho tocar a campainha e eu sair nervosa diante do perigo iminente de  descobrirem meu bicho de estimação não convencional. Um milagre comprado numa loja de quinquilharias da Avenida Paulista, em promoção de fim de ano.

Encontrei as orientações para criar pássaros de madeira na minha caixa de correspondências, enviadas por um anônimo. Arroz integral, carinho nos pés, meia-luz. Odeiam ser repreendidos, feridos, esquecidos no porta-malas. São dóceis. Não perdoam os descrentes de imaginação falida ou mal resolvida.

Assim que li em voz alta para o cuco todo o manual que havia recebido, ele quebrou a janela e voou para bem longe.

 

Imagem de Chris Buzzelli

passaro de madeira

  Depois de avisar por cinco vezes que já eram dezoito horas, o cuco voou pela sala, pousou na mesa de jantar e saiu bicando as migalhas de pão. Não tinha penas ou olhos como outros de sua espécie. As pequenas pernas de cedro quase inflexíveis deixavam para trás lascas de madeira ao passarem perto da faca afiada Continue Reading

Medusa

Por: quinta-feira, março 17, 2016 0

Medusa

 

Ele mascava chiclete e me observava trocar o pneu no acostamento. Você devia ter feito revisão, falou, não podia ter saído para a estrada com o carro assim. Sentado, pegou um bocado de terra do mato e soprou na minha cara, embaçando meus olhos e me fazendo deixar cair o macaco da mão. Eram cinco horas da tarde. Braços suados. Seca na boca. Entornou a garrafa no rosto, encharcou a roupa e o pescoço e fez barulho para engolir. Não me deu uma gota.

Já acabou de trocar o pneu? 

Entrei no carro quente, ele sentou ao lado e reclamou. Pelo vidro, a  visão era sem cores, cinza-concreto, preto-árvore-queimada, borrado-fumaça, verde-musgo só pincelada de um ponto ou outro. Mas minhas unhas no volante tinham cor de cereja brilhante do esmalte da quinta-feira. O suor caía na minha testa e o ar-condicionado não funcionava. Minha cabeça estava se abrindo aos poucos enquanto ele nem imaginava o que surgiria de dentro dela. Continuei muda.

Quando vi a placa Posto a 5 km, comecei a cantar alegre por finalmente poder parar e beber um café. Ele pediu silêncio e disse que não queria ouvir minha voz. Me calei. Mas dentro de mim, tinha show de Heavy Metal, caixa de som estourando e guitarra sendo jogada no chão para a plateia aplaudir. Quando larguei as duas mãos do volante, bocejou. Me transformei em medusa. Eram dezenas de cobras surgindo da minha cabeça, irritadas, cansadas, sedentas e famintas por carne de gente que mascava chiclete.

Não se preocupe, eu te faço carinho com minhas unhas vermelho-cereja.

 

 

Imagem: Pinterest (autoria desconhecida)

 

Medusa

  Ele mascava chiclete e me observava trocar o pneu no acostamento. Você devia ter feito revisão, falou, não podia ter saído para a estrada com o carro assim. Sentado, pegou um bocado de terra do mato e soprou na minha cara, embaçando meus olhos e me fazendo deixar cair o macaco da mão. Eram Continue Reading

Véspera de Lua

Por: quinta-feira, março 3, 2016 1

Vespera 2

 

Véspera de Lua

Rosângela Vieira Rocha

Editora Penalux

Romance

Edição 2015

142 páginas

Escrito em 1988, “Véspera de Lua” foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura pela Editora UFMG. Como um diário secreto que aos poucos é revelado, o livro se abre para o leitor, apresentando o mundo de Paula, ou de todas as Paulas que existem no mundo. Afinal, qual mulher nunca sentiu um nó na garganta ou jamais teve dúvidas amorosas? Quantas mulheres não sentem seu corpo se transformar, mês a mês, na véspera da menstrução – esse fluxo sanguíneo e psicólogico?

“O corpo parece não caber em si, antes de o fluxo despontar. Vai estourar, é hoje, fica aguardando a desagregação dos membros, desta vez não é menstrução nada, é doença grave. Os braços querem sair dos ombros, a nuca certamente vai partir-se ao meio, não dá mais, Deus, ajude para que seja regra mesmo, e se for outra coisa?”

Se a sociedade ainda encara a menstruação como tema tabu, Rosângela Vieira Rocha conseguiu desvendá-la com muita sensibilidade, retirando o véu de uma das facetas femininas mais escondidas. Ela existe, não é vergonha, não é segredo, não é anormal. Ela existe, às vezes dolorida, em outras confusa, mas sempre está lá, todo mês, deixando a sua marca em todas as mulheres.

Enquanto Paula sente os intensos efeitos do seu ciclo, vive também um romance conflituoso com E. , uma mulher que demanda sua atenção e carinho. A homossexualidade, tema ousado para a época em que o livro foi escrito (e ainda hoje ainda pouco tratado pelos autores contemporâneos), aparece num relacionamento marcado por idas e vindas. Acontece que amar e ser amada nos dias em que o corpo de Paula insiste em desapontá-la com cansaço, insônia e humor variável pode ser muito difícil. Principalmente na véspera de lua, quando todas as dores se intensificam.

lua

“Amanhã é lua nova. Então é por isso?

A menstrução, quase sempre, um dia ante da lua nova.

Ninguém explica por que o ciclo feminino possui quase a mesma duração do ciclo lunar”

“Véspera de lua” não tem paradas para respirar. Tem ritmo de serra. Tem fluxo. Tem fio que percorre nossas veias e nos faz sentir todas as dores de uma mulher.

 

 

Vespera 3

  Véspera de Lua Rosângela Vieira Rocha Editora Penalux Romance Edição 2015 142 páginas Escrito em 1988, “Véspera de Lua” foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura pela Editora UFMG. Como um diário secreto que aos poucos é revelado, o livro se abre para o leitor, apresentando o mundo de Paula, ou de todas as Continue Reading