A única sobrevivente

Por: quinta-feira, maio 19, 2016 1

formiga

 

Havia centenas de pegadas pequenas e enfileiradas em direção à saída da cidade. Aqueles que sobreviveram (e não pareciam poucos) fugiram de forma organizada. Outros deixaram apenas seus esqueletos. Era surpreendente como até em momentos de aflição, a cidade fazia filas, mantinha a ordem e não quebrava a hierarquia. Alguém aí? Eu repetia a pergunta, enquanto apenas o vento me respondia com sua rajada impiedosa.

Naquele dia, a solidão parecia certa para uma operária tão nova como eu, nascida e criada com restos e fungos, paralisada numa casta imutável com um único destino: trabalhar e servir. Eram tantas ordens a que eu me submetia que, frente ao silêncio, não sabia o que fazer. Pela primeira vez, podia decidir o próximo passo, mas era difícil caminhar enquanto a coragem ainda não existia dentro de mim.

Enquanto eu descansava sobre um pedregulho, o céu nublado avisava que logo a chuva cairia. Era preciso encontrar algum túnel, mas toda a cidade estava coberta de terra. As folhas começaram a cair uma a uma e eu fugia de todas, mesmo com duas pernas quebradas e imobilizadas. Enquanto corria, pisava sobre mortos e algum deles poderia ser a rainha. Ou ela havia sobrevivido?

Se eu achava que a sorte sorria para mim, salvando-me de um desastre, logo constatei que o azar já mostrava os seus sinais. Do alto, vi uma gota de chuva caindo em minha direção, como foguete lançado para destruir um asteroide, e me vi dentro de uma bolha transparente, rolando pelo chão, cada vez mais rápido. Sem conseguir respirar e prestes a morrer afogada, eu tentava escapar e pedia socorro. Não havia ninguém para me salvar. E se houvesse, alguém salvaria uma operária?

 Eu era apenas uma formiga.

 

Foto: autor desconhecido, Pinterest

 

formiga

  Havia centenas de pegadas pequenas e enfileiradas em direção à saída da cidade. Aqueles que sobreviveram (e não pareciam poucos) fugiram de forma organizada. Outros deixaram apenas seus esqueletos. Era surpreendente como até em momentos de aflição, a cidade fazia filas, mantinha a ordem e não quebrava a hierarquia. Alguém aí? Eu repetia a pergunta, Continue Reading

32ª Feira do Livro de Brasília

Por: quinta-feira, maio 12, 2016 0

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Está chegando a 32ª Feira do Livro de Brasília! Com o tema “Meu mestre, meu livro”, o evento vai destacar o papel do professor como protagonista na promoção da literatura e na formação de leitores.

A  feira vai acontecer de 16 a 24 de julho, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, com a presença de 170 escritores locais e cerca de 20 nacionais. A organização espera receber 400 mil pessoas durante o evento.

Toda a programação da feira vai valorizar a relação com os educadores e haverá alas temáticas com atividades específicas.

Outro destaque desta edição da Feira do Livro de Brasília será o 1º Encontro Nacional de Escritores Jovens do Brasil, que vai reunir cerca de 40 autores de 8 a 30 anos para troca de experiências, oficinas e lançamentos de livros. O 1º Encontro Nacional de Blogueiros Literários também vai acontecer durante a feira em Brasília.

O Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e a Câmara do Livro do Distrito Federal estão selecionando escritores, contadores de histórias, ilustradores e quadrinistas, mediadores de leitura, oficineiros de atividades de incentivo à leitura e projetos de leitura, com pagamento de cachê, para apresentações durante o evento. Podem participar do chamamento artistas residentes no Distrito Federal ou na Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (RIDE).

Outras informações podem ser respondidas pelo e-mail edital1.feiradolivrodebrasilia@gmail.com ou pelo telefone (61) 3031-6524.

 

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  Está chegando a 32ª Feira do Livro de Brasília! Com o tema “Meu mestre, meu livro”, o evento vai destacar o papel do professor como protagonista na promoção da literatura e na formação de leitores. A  feira vai acontecer de 16 a 24 de julho, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, com a presença Continue Reading

5 livros sobre mães e filhos

Por: domingo, maio 8, 2016 0

Marcada por emoções profundas, às vezes contraditórias, a maternidade sempre foi rica matéria-prima para qualquer história, desde os tempos das gregas Deméter e Perséfone.

Muitas obras são capazes de fazer o leitor conhecer mais sobre o processo de “padecer no paraíso”, por meio de diálogos e pensamentos fictícios, inspirados nos espelhismos, encontros e confrontos entre mães e filhos, e na dura e doce trajetória das mulheres que optaram (ou foram levadas) pelo caminho da maternidade.

Neste dia das mães, que tal ler alguma obra centrada nos relacionamentos entre mães e filhos? Confira algumas dicas que vão te fazer pensar sobre a maternidade de um jeito muito profundo e diferente!

1- Bondade, de Carol Shields, editora Bertrand

Bondade

Reta Winters é mãe de Norah, uma jovem que decide se afastar de sua família e abandonar a universidade, para ficar numa rua de Toronto, como mendiga, segurando uma placa com a palavra “Bondade”. Tristeza e resignação marcam esta obra, até o leitor descobrir os motivos que levaram Norah a tomar uma decisão tão drástica. 

 

2- Precisamos falar sobre Kevin, de Lionel Shriver, editora Intrínseca

kevin

Eva é  mãe de Kevin, um adolescente perturbado que decide matar onze colegas da escola. Entre a raiva e a culpa, Eva mergulha numa vida de terror psicológico, tentando retomar a sua vida após a tragédia.

 

 3- A falta que você me faz, de Joyce Carol Oates, editora Nova Fronteira

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Nikki encontra sua mãe Gwen Eaton, assassinada na garagem de sua casa. Este traumatizante episódio transforma  a vida de Nikki,  que dá início à busca pelo assassino e pela descoberta dos segredos e sonhos de sua falecida mãe. Resenha completa aqui

 

4- Uma morte muito suave, de Simone de Beauvoir, editora Nova Fronteira

capa morte suave

Simone de Beauvoir narra sua angústia e solidão durante processo de morte da sua mãe, Françoise Brasseur. Relembra momentos de convívio difícil com sua mãe,  de remorsos e ressentimentos, bem como relata a vida de Françoise, sob uma perspectiva feminista.

 

5- Hibisco Roxo, de Shimamanda Ngozi, editora Companhia das Letras

hibisco roxo

Kambili é uma jovem nigeriana de quinze anos, filha de Beatrice. Juntas, tentam sobreviver  num lar doméstico violento, onde o pai de Kambili usa sua força para oprimir toda a família, e submetê-la aos seus preconceitos e ideologias religiosas.

 

Bondade

Marcada por emoções profundas, às vezes contraditórias, a maternidade sempre foi rica matéria-prima para qualquer história, desde os tempos das gregas Deméter e Perséfone. Muitas obras são capazes de fazer o leitor conhecer mais sobre o processo de “padecer no paraíso”, por meio de diálogos e pensamentos fictícios, inspirados nos espelhismos, encontros e confrontos entre mães Continue Reading

A gentileza mortal do mar

Por: quinta-feira, maio 5, 2016 0

baleia

Durante a caminhada ao lado do mar, ficamos em silêncio.

O único som era a batida dos pés dele na areia, marcando o chão molhado e salgado. Imaginei os grãos entrando por entre seus dedos e ali ficando, sem pretensão alguma de se juntarem novamente à praia. Fiquei envergonhada de assumir que me faltava coragem de sentir as ondas batendo nas minhas costas sem que eu pudesse tocá-las previamente com a bengala. O mar não era como uma parede, uma calçada ou um armário. Era uma boca enorme que atraía tudo à sua volta. Navios, anéis, pessoas afogadas, aviões acidentados, pedaços de casas que se foram com ventanias.

Senti a água fria sugando os meus pés, avisando que o mar estava faminto. Tentei me equilibrar como numa bicicleta no chão movediço, e segurei bem firme a mão dele. Mergulhei. Fiquei escutando o ruído das conchas se movendo, das gaivotas do lado de fora e de todos os objetos enterrados que vez ou outra tentavam escapar.

Pequenos peixes que nadavam ao redor se aproximaram. Disseram próximos dos meus ouvidos que também não conseguiam enxergar no fundo do oceano. Foram tão solidários com a minha cegueira que eu quis ficar mais tempo lá embaixo, e me sentir pela primeira vez igual a todo mundo. E querendo não ser mais diferente, o ar do meus pulmões foi acabando aos poucos.

Patrícia!, ele me chamou e me puxou para a superfície. Fui salva da gentileza mortal do mar.

 

Imagem: Gabriella Liv Eriksson

 

baleia

Durante a caminhada ao lado do mar, ficamos em silêncio. O único som era a batida dos pés dele na areia, marcando o chão molhado e salgado. Imaginei os grãos entrando por entre seus dedos e ali ficando, sem pretensão alguma de se juntarem novamente à praia. Fiquei envergonhada de assumir que me faltava coragem de Continue Reading