Três vidas

Por: quinta-feira, novembro 24, 2016 0

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Ela queria tanto estar em vários lugares ao mesmo tempo que sua vontade a transformou em três. Maria Elisa se tornou Maria, Elis e Isa. No princípio, foi difícil se ver triplicada e dividir as funções entre suas réplicas, mas depois ficou feliz e achou que tinha resolvido a sua falta de tempo.

Maria ficou por conta da família, Elis do trabalho, Isa do resto. No mesmo instante, Maria Elisa estava em seu escritório de advocacia, cuidando das crianças e fazendo compras de supermercado. Ninguém mais reclamava da sua ausência ou falta de atenção. Sobravam horas para dormir o quanto quisesse, ir ao cinema e até ficar de frente ao espelho olhando as próprias rugas.

Ao completar oitenta anos, Maria Elisa ficou muito doente, prestes a morrer. Teve que lidar com três mortes causadas por problemas no coração. Do outro lado da vida, depois de pagar os pecados triplamente, pediu para reencarnar três vezes ao mesmo tempo e jurou não reclamar.

Renasceu como uma escritora que conseguia escrever trilogias simultaneamente, em primeira pessoa. Os três narradores, egos da própria escritora, tinham vidas completamente diferentes e se complementavamNão reclamou e considerou seu desejo atendido.

 

 Imagem: P. Baikal

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  Ela queria tanto estar em vários lugares ao mesmo tempo que sua vontade a transformou em três. Maria Elisa se tornou Maria, Elis e Isa. No princípio, foi difícil se ver triplicada e dividir as funções entre suas réplicas, mas depois ficou feliz e achou que tinha resolvido a sua falta de tempo. Maria Continue Reading

Visita inesperada

Por: sexta-feira, novembro 11, 2016 0

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Três dias em Petrópolis seriam o suficiente para respirar um pouco mais de ar puro e descansar. Na terça-feira, 8 de novembro, passei o dia na Le Siramat, uma pousada no alto  da serra, rodeada por árvores e com vista panorâmica para os morros mais distantes. A quarta amanheceu com sol, perfeito para dar uma volta no centro da cidade e visitar o Quitandinha e o Orquidário. Enquanto almoçava uma massa italiana no Luigi, soube pela televisão da vitória de Trump, das explosões na Síria e dos novos casos de corrupção no Brasil.

À noite, aproveitei a varanda da pousada para tomar um vinho e olhar a paisagem. Às três da manhã, todos os hóspedes já estavam dormindo e parecia que apenas eu não tinha me entregado ao sono. Olhava para Marte piscando no alto e imaginava quantos anos ainda seriam necessários para que os terráqueos conhecessem os marcianos.

Lá longe, entre os morros, vi uma estrela cadente. Duas, três, quatro. Começaram a surgir tantas luzes que comecei a tirar fotos com a câmera do celular. Elas se aproximaram da pousada ou a pousada se aproximou delas, não sei ao certo. Em poucos segundos, eu estava lá, entre os morros e as luzes girando em círculo, descendo aos poucos na mata.

Assustada, quebrei a taça de vinho na mão. Alguém se aproximou, com olhos grandes e pele esverdeada, tão clichê que achei que fosse um homem fantasiado. Quando ele falou sem abrir a boca e se comunicou comigo apenas pelo pensamento, comecei a acreditar no que via. Falou que era vizinho de uma galáxia próxima e que seu planeta estava preocupado. Achava, pelas notícias que captou a anos luz daqui, que a Terra estava de cabeça para baixo e que toda a humanidade havia se extinguido. Veio checar. Falei que era tudo verdade. O planeta estava de cabeça para baixo. Pedi ajuda e carona. Ele disse que não podia dar carona porque não era do tipo que fazia abdução.

Depois disso, só me lembro de amanhecer no dia seguinte com ressaca. No check-out, a nova empregada me advertiu dos perigos de quebrar uma taça de vinho na mão. Só me lembrei de que não havia comentado com ninguém sobre o incidente da taça quando eu já estava na rodovia, a caminho do Rio de Janeiro.

 

 Imagem: P. Baikal

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Três dias em Petrópolis seriam o suficiente para respirar um pouco mais de ar puro e descansar. Na terça-feira, 8 de novembro, passei o dia na Le Siramat, uma pousada no alto  da serra, rodeada por árvores e com vista panorâmica para os morros mais distantes. A quarta amanheceu com sol, perfeito para dar uma volta Continue Reading

Ovo azul-turquesa

Por: sexta-feira, novembro 4, 2016 0

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Eu batia na porta antes de entrar naquela construção abandonada, com tijolos manchados de chuva que caía do teto inacabado. Três cômodos era tudo o que a casa tinha. E um criado-mudo, único morador, sozinho, imóvel e calado. Mas o que era para ser vazio, um espaço sem razão, tinha um ninho grande no meio da sala com um ovo azul-turquesa, também grande,  protegido por uma ave rara e gigantesca.

Na primeira vez que passei pela porta e escutei um canto mateiro vindo de dentro da casa, parei e ouvi, achando que era gente treinando flauta para um concerto. Mas pela fechadura eu vi as asas grandes de penas brancas, as plumas na cabeça, o bico fino, o corpo longo e esguio como uma garça, mas muito maior, observando o ovo no chão. Havia um cheiro de planta molhada, de relva, de natureza morando, tomando conta do espaço e fazendo de conta que sempre esteve ali.

Entrei porque. Não sei por que entrei, de tão hipnotizada que estava pela visão. Observei a ave cantando em direção ao teto esburacado. O ovo estava trincado e, quanto mais agudo ela cantava, mais ele se quebrava. Apenas eu escutava o canto? Cinco dias se passaram assim sem eu comentar a descoberta com alguém.

Na manhã que encontrei cascas azul-turquesa e penas brancas voando com o vento pela rua, vi a ave de longe, levando em suas garras a casa em que morava, toda reconstruída sem buracos, manchas ou vãos. No lugar da casa, só restou o criado-mudo. Sentei-me nele e fiquei me perguntando se era possível uma ave chocar a própria casa com canto e levar para qualquer canto o lugar que acha que é seu.

  

Imagem: P. Baikal

 

 

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  Eu batia na porta antes de entrar naquela construção abandonada, com tijolos manchados de chuva que caía do teto inacabado. Três cômodos era tudo o que a casa tinha. E um criado-mudo, único morador, sozinho, imóvel e calado. Mas o que era para ser vazio, um espaço sem razão, tinha um ninho grande no Continue Reading