A bailarina que dançava com caramujos nas mãos

Por: quarta-feira, junho 17, 2015 0

bailarina

 

 

Eu peço atenção, mas ele vira o rosto e me dá as costas, como se não ouvisse meu pedido silencioso, e segue seu caminho, crente que minha vontade não é nem um sussurro, nem uma formiga cruzando suas pegadas deixadas para trás. Não faz mal ter a solidão um pouco perto, ladeando vez ou outra meu ombro, dizendo Volto daqui a pouquinho (mesmo que isso signifique o tempo necessário para eu encontrar todos os caramujos da cidade).

E se de repente ele volta com toda a beleza que sempre exibiu, seguindo a direção dos meus olhos por dentro e por fora, fazendo-me girar cem vezes para enganar seu olhar, eu me apresento do avesso. Ofereço todos os caramujos que encontrei durante sua longa ausência e também mostro os pássaros, tristes após terem sido retirados de gaiolas invioláveis. Ah, quanto tempo se passou! Ele está reluzente e parece até ave rara que se equilibra em pernas finas para manter a pose.

Ele se tornou um flamingo, e eu, uma bailarina que continua girando em sua direção, alimentando suas vontades. Se somos agora tão diferentes, como será nosso abraço entre penas cor-de-rosa e pelos ouriçados, dedos e asas, palavras e gritos sem tradução? Ainda assim nos olharemos por dentro e por fora? Talvez meu avesso também seja uma ave rara, mas não quero ser assim. Prefiro alimentá-lo com caramujos, que é para ele sempre estar perto das minhas mãos.

 

Imagem: Reminescence of Morning Awakening, de Ilya Zomb

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