A morte pode ser boa

Por: sexta-feira, junho 26, 2015 0

defunta

 

Ele voltou para a sala onde estava Inês e ficou olhando para aquele semblante congelado de gente morta, como todos que se deitaram na mesa. De vez em quando podia reconhecê-lo até em pessoas vivas. Algumas tinham um sorriso contido, outras um susto fincado entre as sobrancelhas e ficavam todas assim, querendo abrir os olhos para se verem no espelho, no último dia de suas vidas.

Enquanto ajeitava a manga do vestido da recém-falecida estendida na mesa, cantarolava a canção que ouvia no rádio. Penteou o cabelo da defunta, prendeu dois grampos em cada lado da cabeça dela (penteado recomendado pela família), passou um pouco de batom laranja-claro e perguntou próximo ao seu ouvido: Você está pronta? Ela, imóvel, tinha semblante sério, pele alva de quem mal via o sol e olhos azuis escondidos pelas pálpebras que nunca mais se levantariam.

Ao se lembrar que o dia tinha amanhecido e que havia ficado ali, trabalhando por tantas horas seguidas preparando mais um corpo, sem comer um farelo de pão sequer, dirigiu-se à cozinha e preparou um café. Somente assim conseguiria ficar acordado o tempo necessário para dar um pouco de dignidade e beleza à morte. Estava concentrado em seu trabalho quando alguém se aproximou a passos lentos, perguntando: O senhor está pronto?

Veio um medo e suas sobrancelhas paralisaram no meio da testa e ele se viu deitado na mesa em que estava Inês. A mesma música ainda tocava no rádio e ele podia sentir o cheiro do café que vinha da cozinha e inebriava seus sentidos. Está pronto?, Inês perguntou de novo, bem próxima ao seu ouvido. Seus olhos azuis agora estavam vívidos, e sua pele brilhante. Não gosto dos grampos no meu cabelo nem do batom laranja-claro, ela disse.

Quando sentiu o café quente se derramando nos dedos dos pés, acordou assustado do pesadelo e, rapidamente, procurou pelo corpo da defunta. Ao encontrá-la, prestes a ser transferida para o caixão, retirou os grampos do cabelo dela e trocou seu batom laranja-claro pelo vermelho-rosado. Somente agora você está pronta, disse antes de cobrir Inês com uma manta.

 

Imagem: de Malcolm Liepke

 

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