Até a última pétala cair

Por: quinta-feira, agosto 20, 2015 0

flores 2

No vaso, há quatrocentas e cinquenta e seis pétalas. Contei uma a uma.

De vez em quando, o vento entra muito forte pela janela e alguma delas cai sobre a mesa. É uma pétala a menos. Fico olhando este movimento, o de se desprender do caule e cair vagarosamente, sem ruído ou alarde. É como pluma. Já se foram tantas. Estão guardadas, secas dentro de livros, prestes a se tornarem quadros na parede. Nenhuma se perderá.

Já se passaram oito dias. Elas hão de resistir, coladas entre si como se fossem uma só no grande ramalhete. Talvez sobrevivam por mais tempo se plantadas na terra, agarradas com suas raízes mais firmes do que na água, presas em um laço de fita. Mas não vou mudá-las de lugar. Quero que tudo permaneça como ele deixou, apesar do maltrato desta seca sem nuvem nem sinal de garoa. 

Uma mosca pousa na flor azul e me assusta com seu zumbido. O que ela quer aqui? Fecho as janelas, tampo as fechaduras e também os buracos da casa. Se eu ficar sem ar, será culpa das flores que não são feitas de tecido e morrem muito rapidamente. Se as pétalas pudessem ser alinhavadas uma a uma… A natureza não se importaria com o tamanho do remendo, desde que bem feito (à mão ou na máquina de costura).

Respingo água nas folhas para tirar a poeira que vem do lado de fora enquanto penso: ele voltará antes de a última pétala se desprender? 

 

Imagem: Flowers in a Vase – Paulus Theodorus van Brussel, 1792 

 

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