Cafeomancia

Por: quinta-feira, setembro 22, 2016 0

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Decidi consultar uma leitora de borra de café numa sala comercial da Asa Norte por acreditar que seres inanimados podem, de alguma forma muito estranha às leis físicas conhecidas, revelar um pouco sobre as pessoas. E antes que alguém diga que oráculos como uma xícara de café, búzios ou cartas de tarô são apenas tentativas vazias de enxergar o futuro, que são pura ilusão de gente fantasiosa ou ignorante, preciso contar a minha história. Prestem atenção aos detalhes.

Foi no último sábado pela manhã, dia 17 de setembro, que entrei num prédio de três andares, numa quadra comum daqui de Brasília por onde gatos ciscam o chão e ladeiam a gente. No quinto ou sexto degrau da escada do prédio, um cego de olhos leitosos descia lentamente, com uma mão no corrimão e a outra numa bengala. Quando sentiu minha aproximação, ele me disse (como se soubesse para onde eu ia): Beba devagar porque o café é sempre quente e pode queimar a sua língua. Agradeci pela dica sem saber ao certo se ele falava comigo, ao mesmo tempo em que tentei me equilibrar depois de um gato passar por debaixo das minhas pernas e parar exatamente diante da sala comercial nº 305.

Assim que toquei a campainha, uma mulher de sessenta e poucos anos, cabelos brancos até a cintura, olhos cinzas e sotaque de estrangeira abriu a porta, disse Entrrre, e depois me encaminhou para uma sala de espera à meia-luz. A mulher me deu uma xícara branca de porcelana e me falou para beber devagar, de gole em gole, até restar apenas a borra de café no fundo da xícara. Segui as orientações, enquanto olhava para os livros esotéricos numa estante e para uma bruxinha de pano pendurada na janela de cobogós.

Quando a borra apareceu, ela examinou o fundo da xícara com atenção, sob a luz de uma luminária, e começou a decifrar o meu passado, entre imagens de âncoras, flores e números desenhados ao acaso pelo café. Falou do meu presente, adivinhando onde moro, com quem vivo e qual religião sigo. Sobre o futuro, previu acontecimentos em até quatro meses. Você quer perrrguntarr mais alguma coisa?

Paguei a leitura e depois pedi um copo d’água. Enquanto tomei um gole, de costas para ela, escutei um miado fino e sôfrego. Ao me virar, vi apenas um gato de olhos cinzas pulando sobre a mesa e lambendo a borra que restou na xícara. Aguardei por alguns minutos a mulher reaparecer, mas em vez disso, entrou pela porta da sala o cego de olhos leitosos e me perguntou Como estava o café? Respondi que quase tinha queimado a língua e depois quis saber da mulher que havia desaparecido. Ela está aí na sua frente, não está? Eu só disse, desconfiada, Diga a ela que volto qualquer dia desses.

Quero voltar no próximo sábado só para seguir os gatos que circulam por aquele prédio e checar se, estranhamente, algum deles some no exato instante em que uma mulher de cabelos longos aparece para abrir a porta da sala comercial nº 305oferecer uma xícara de café e depois sumir sem deixar vestígios. 

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