Carta a Shakespeare

Por: quarta-feira, novembro 5, 2014 0
judith
Querido irmão,
 
Quando as janelas estão cerradas, não consigo ir muito além das paredes mofadas de casa. Isso justifica a ânsia que me consome, todas as manhãs, ao acordar. Vou correndo abri-las, como se fossem portas para o horizonte. Elas me mostram um céu nublado, inglês, que não esconde a vontade de chorar. A chuva é como lágrimas, penso eu, e vou logo chamar Margareth para ver as gotas caindo sobre as árvores.  

Depois preparo a mesa para o café. Aguardo, ansiosa, pelas xícaras sujas e farelos de pão. São sinais de que posso em breve lavar a louça e me sentar à frente da cômoda da sala de estar, como faço agora, para escrever algumas linhas. Há tempos que tento terminar um capítulo, mas as interrupções são constantes nesses dias que antecedem o meu casamento.

Como eu gostaria de estar em Londres com você, nas primeiras cadeiras do teatro, assistindo a Romeu se declarando ao único e último amor de sua vida! Não existe, em toda a Inglaterra, um escritor tão profundo e conhecedor dos sentimentos humanos como você, meu irmão. Será que, um dia, também serei  uma grande escritora? Creio que não. Minhas atividades domésticas me consomem diariamente, e é difícil me concentrar com tanto barulho à minha volta. Talvez, eu tenha a opção de narrativas curtas, o que acha, Will?

É uma pena você não poder estar no meu casamento, mas guardarei comigo seus votos sinceros de sorte e amor. Se por acaso eu não for feliz, deseje-me que, ao menos, minha tristeza tenha algum proveito nas suas histórias, e que a minha esperança de ser feliz não se acabe como um sonho de uma noite de verão.
                                                                  
                                                                      Com carinho,
                                                                  Judith Shakespeare
 
 
Esta carta foi inspirada no livro escrito por Virginia Woolf, em 1928 “Um teto todo seu”, onde a autora discorre sobre as dificuldades das mulheres de sua época para se tornarem escritoras, devido aos diversos empecilhos e obrigações sociais que deviam observar. Para ilustrar a diferença de oportunidades oferecidas aos homens e às mulheres ao longo da história, Virginia Woolf imagina a existência hipotética de uma irmã de William Shakespeare chamada Judith. Teria ela tempo e dinheiro para se dedicar ao ofício da escrita? O que ela faria enquanto seu brilhante irmão estreava peças de teatro em Londres? Teria sido uma grande escritora? Quase um século se passou, e os mesmos questionamentos de Virginia Woolf ainda podem ser aplicados em nosso tempo, em pleno século XXI.


Imagem: “Retrato de uma jovem” de Domenico Ghirlandaio
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