Lobo de tinta

Por: sexta-feira, dezembro 16, 2016 0

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Não era só minha imaginação que fazia a pintura do quadro se mexer, como tela de cinema em escala menor e com cheiro de relva molhada. A imagem de tinta, feita para ser estática, tinha folhagens que voavam com o vento que vinha do morro pintado no fundo. E o lobo que olhava para  o lado direito começou a me encarar como se fosse pular da tela e me agarrar.

Dei dois passos para trás e me segurei numa coluna de gesso. Isto foi tudo o que consegui fazer enquanto observava a paisagem pintada se desmanchar com uma forte tempestade que caía apenas dentro do quadro. Respingou em mim gotas de água tão reais como as paredes brancas do quarto daquele hotel barato de rodovia, próximo a Belo Horizonte.

Nem vi que o leite se derramava do copo na minha mão e caía sobre o carpete verde-musgo. Que nem o tempo. Não sabia por quantas horas eu tinha dirigido na estrada, talvez oito, talvez dez. O tempo escoou feito leite ou gasolina do carro, sem que eu percebesse.

O lobo finalmente pulou do quadro, balançou os pelos molhados e veio deitar ao meu lado, sobre os lençóis puídos. Não dormi enquanto o animal não fechou seus olhos e descansou. Foi a primeira e única vez que dormi na mesma cama com um lobo, e acordei com o corpo doído em meio à relva. 

 

Imagem: P. Baikal

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