O pai

Por: domingo, agosto 14, 2016 0

guarda-chuva

 

Ele viu um guarda-chuva à venda por dez reais e não hesitou em comprá-lo. Com a mão esquerda, segurava a criança; com a mão direita dava o dinheiro para o vendedor. Saiu debaixo de toda aquela água que não parava de cair do céu, na sarjeta de quem se acostumou a caminhar encharcado na vida, desconfortável dentro da própria roupa no corpo. A chuva molhava a roupa do bebê no colo, tão pequeno protegido pela jaqueta do pai.

Seguia em silêncio sem reclamar, conformado com a necessidade de cruzar a grande cidade, absorto na ideia de levar o bebê  de volta para casa. Carregava-o no braço com a leveza de uma pena, como se não fosse pesado nem fardo, só desejando ter asa para chegar mais rápido. Quando a tempestade piorou, escondeu-se debaixo de um teto e aguardou por alguns minutos. Assistiu aos carros passarem, o lixo e o esgoto.

Como continuaria a andar se tudo se tornava empecilho?

O guarda-chuva tão barato era também muito leve e começou a se desprender da mão do dono para se prender na ventania. De repente voou alto, mas não sozinho. Levou consigo o pai e o filho pelos arredores da cidade, atravessando prédios e viadutos, com a mesma velocidade e força com que o vento cortava árvores pela metade. Na cercania de um bairro isolado, o guarda-chuva desceu e estacionou em frente a um sobrado velho. O pai abriu o portão de ferro, subiu as escadas, deu um banho quente no bebê e o pôs para dormir.

Deixou o guarda-chuva atrás da porta, com a normalidade de um pai cansado que não reconheceu a anormalidade de um dia qualquer.

  

Imagem: The Flying Umbrellas, by Patrick Desmet Magritte inspiration

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