Ovo azul-turquesa

Por: sexta-feira, novembro 4, 2016 0

azul-turquesa

 

Eu batia na porta antes de entrar naquela construção abandonada, com tijolos manchados de chuva que caía do teto inacabado. Três cômodos era tudo o que a casa tinha. E um criado-mudo, único morador, sozinho, imóvel e calado. Mas o que era para ser vazio, um espaço sem razão, tinha um ninho grande no meio da sala com um ovo azul-turquesa, também grande,  protegido por uma ave rara e gigantesca.

Na primeira vez que passei pela porta e escutei um canto mateiro vindo de dentro da casa, parei e ouvi, achando que era gente treinando flauta para um concerto. Mas pela fechadura eu vi as asas grandes de penas brancas, as plumas na cabeça, o bico fino, o corpo longo e esguio como uma garça, mas muito maior, observando o ovo no chão. Havia um cheiro de planta molhada, de relva, de natureza morando, tomando conta do espaço e fazendo de conta que sempre esteve ali.

Entrei porque. Não sei por que entrei, de tão hipnotizada que estava pela visão. Observei a ave cantando em direção ao teto esburacado. O ovo estava trincado e, quanto mais agudo ela cantava, mais ele se quebrava. Apenas eu escutava o canto? Cinco dias se passaram assim sem eu comentar a descoberta com alguém.

Na manhã que encontrei cascas azul-turquesa e penas brancas voando com o vento pela rua, vi a ave de longe, levando em suas garras a casa em que morava, toda reconstruída sem buracos, manchas ou vãos. No lugar da casa, só restou o criado-mudo. Sentei-me nele e fiquei me perguntando se era possível uma ave chocar a própria casa com canto e levar para qualquer canto o lugar que acha que é seu.

  

Imagem: P. Baikal

 

 

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