A temperatura do tempo

Por: segunda-feira, maio 5, 2014 2
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Há lembranças que são como fogo e gelo no meu corpo.  
Quando criança, eu subia montanhas e me jogava de precipícios. Nunca me machucava. Havia monstros e todos se escondiam de mim. Os mais perigosos tinham vários pescoços e cabeças a rodopiar  eu somente os conhecia pelos livros. De repente, minhas asas se tornaram pesadas e não mais abraçavam as rajadas de ar. 
 
No dia mais frio, passei a sangrar.  
 
Comecei a ver de perto os monstros de vários pescoços e cabeças. Eles me pressionavam de muitas formas. Travei uma guerra. Alguns queriam dinheiro, outros se contentavam com falsos elogios, mas, mesmo assim, continuavam a cuspir fogo. A luta era constante. O que era mesmo que eu fazia para não me machucar nos precipícios? Não me recordava… Alguém me ajudou a relembrar e, juntos, multiplicamos nossas vidas. Eu me multipliquei. Tornei-me duas, depois, três. 
No dia mais quente, parei de sangrar. Parecia que todos cuspiam fogo ao redor. 
 
Hoje, sinto frio. Com tão pouca gordura no corpo, não é de se surpreender. Poucos me compreendem; é difícil envelhecer. Nem aqueles que são multiplicações de mim sabem como me sinto. Eles não deveriam saber o que se passa comigo? A vida mudou. Talvez, hoje, eu seja um monstro. Por isso, ninguém vem me visitar. Eles têm medo. Medo de que eu cuspa fogo e volte a voar. 
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Há lembranças que são como fogo e gelo no meu corpo.   Quando criança, eu subia montanhas e me jogava de precipícios. Nunca me machucava. Havia monstros e todos se escondiam de mim. Os mais perigosos tinham vários pescoços e cabeças a rodopiar – eu somente os conhecia pelos livros. De repente, minhas asas se tornaram pesadas e Continue Reading

Aneurisma

Por: domingo, abril 27, 2014 0
favela-night
Depois das oito horas da manhã, tudo está aberto, o comércio e as bocas dos defuntos estendidos nas ruas. O sábado é assim, uma ressaca dos tiroteios da madrugada. Saltar um morto é como brincar de amarelinha, uma brincadeira de criança, com direito a muitas balas.
 
Aqui, a paisagem é fosca; somente brilham as correntes de ouro dos traficantes. Eles estão em todos os lados, como os prantos das mães que perdem seus filhos para o mundo. Nessa semana, uma mãe desmaiou. O filho, que era dançarino, morreu numa troca de tiros. Hoje, havia repórteres em toda esquina, querendo saber quem conhecia o falecido.
 
“Eu brincava de amarelinha com ele, quando éramos crianças. Amarelinha de verdade”, falei. “E, por acaso, existe amarelinha de mentira?”, a jornalista me perguntou. “Mentira é pisar em morto como se fosse asfalto, dona”. Ela tirou uma foto do morro e,depois foi embora, pisando na calçada suja de sangue. 
Eu queria ter contado à repórter que meu pai tinha um aneurisma e sabia que, a qualquer momento, ele podia morrer. Morar aqui é como ter um aneurisma. 
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Depois das oito horas da manhã, tudo está aberto, o comércio e as bocas dos defuntos estendidos nas ruas. O sábado é assim, uma ressaca dos tiroteios da madrugada. Saltar um morto é como brincar de amarelinha, uma brincadeira de criança, com direito a muitas balas.   Aqui, a paisagem é fosca; somente brilham as Continue Reading

A chegada de Gabriel García Márquez no céu

Por: sábado, abril 19, 2014 0
uma-estrela
– Onde estou?
– Em Macondo.
– Macondo? Eu morri?
– Sim, senhor. Há dois dias.
– E quem é você?
– Kafka. Franz Kafka.
– Não é possível! Você está morto!
– Morto não. Metamorfoseado.
– Se estamos em Macondo, onde estão os Buendía?
– Virão para a festa.
– Haverá uma festa?
– Mas é claro! O céu festeja a sua chegada!
– Quer dizer que aqui posso encontrar meus personagens?
– Todos eles. E exatamente como os descreveu em seus livros.
– Mas isso é fantástico!
– E real!
– Kafka…
– Sim?
– Eu sabia que meus personagens eram reais em algum lugar do mundo…
 
 
 
 
 

 

uma-estrela

– Onde estou? – Em Macondo. – Macondo? Eu morri? – Sim, senhor. Há dois dias. – E quem é você? – Kafka. Franz Kafka. – Não é possível! Você está morto! – Morto não. Metamorfoseado. – Se estamos em Macondo, onde estão os Buendía? – Virão para a festa. – Haverá uma festa? – Continue Reading

A garçonete

Por: sexta-feira, março 7, 2014 2
 guarda-chuva
Hoje, ela passou por aqui. Foi trabalhar. Esperou no ponto de ônibus por quinze minutos, debaixo do guarda-chuva marrom. Daqui da janela, vejo tudo. A barra da calça dela está comprida demais e, de tão molhada, arrasta no chão. O sapato é preto de salto gasto. O cabelo pesado e escuro disfarça a sujeira de ontem, da cozinha, do óleo e do bar.

Quase sempre é ela quem me atende, oferecendo o cardápio. Aceita o lanche do dia? Café, suco de laranja e pão com mortadela. É claro que aceito, eu sempre aceito, todas as manhãs. Ela derrama o café na xícara e, depois, o suco no copo de plástico. É o meu ritual. 

Qualquer dia desses eu me declaro. Quer sair comigo esta noite? Você sabe meu nome? Eu sei o seu. Também sei onde mora, com quem sai, por onde anda. Poderia dizer tudo isto. E também contaria que seu último namorado não valia uma figa, uma unha do meu pé. Ela ficaria assustada, quando então eu diria Sim, ele te traía. No auge da minha ilusão doentia, neste momento, ela cairia nos meus braços e seríamos dois loucos sobre a mesa do bar.
— Com licença, o senhor aceita o lanche do dia?
— E qual é?
— Café, suco de laranja e pão com mortadela, por três reais e noventa centavos.
Ela me olhou por alguns instantes e depois virou as costas. Alguém a chamou na cozinha. Dezoito meses para ser notado e alguém a chama na cozinha. Não faz mal. Talvez ela tenha me reconhecido da rua ou da minha janela. Amanhã venho de novo. Amanhã é um novo prato do dia.

 

guarda-chuva

  Hoje, ela passou por aqui. Foi trabalhar. Esperou no ponto de ônibus por quinze minutos, debaixo do guarda-chuva marrom. Daqui da janela, vejo tudo. A barra da calça dela está comprida demais e, de tão molhada, arrasta no chão. O sapato é preto de salto gasto. O cabelo pesado e escuro disfarça a sujeira Continue Reading

O primeiro poema de amor

Por: sábado, dezembro 21, 2013 0
poema-sumerio
Numa cerimônia de casamento, há quatro mil anos, uma mulher se declarava ao seu noivo, o rei da Suméria, Shu-Sin. Trata-se do poema de amor mais antigo da humanidade, a tabuleta 2461, que se encontra no Museu de Antiguidades Orientais de Istambul.
 
Conforme historiadores, aquela noite era possivelmente o primeiro dia do ano. Em meio a músicas e danças, alguém fazia o que fazemos até hoje, e sentia a necessidade mais natural de todos nós, a de expressar o amor. 
 
Será que escrever sobre o amor, por ser arte tão antiga, não seja também instintiva?
 
Poema ao rei Shu-Sin
Noivo, caro ao meu coração,
Agradável é a tua beleza, doce mel,
Leão, caro ao meu coração,
Agradável é a tua beleza, doce mel.
Tu cativaste-me, deixa-me permanecer tremente perante ti,
Noivo, eu deixaria que me levasses para o quarto,
Tu cativaste-me, deixa-me permanecer tremente perante ti,
Leão, eu deixaria que me levasses para o quarto.
Noivo, deixa que te acaricie,
A minha preciosa carícia é mais saborosa do que o mel,
No quarto o mel corre,
Desfrutamos a tua agradável beleza,
Leão, deixa-me acariciar-te,
A minha carícia amorosa
é mais saborosa do que o mel,
Noivo, tu de mim tomaste o teu prazer,
Diz isto a minha mãe, ela far-te-á gentilezas,
O meu pai, ele dar-te-á presentes.
O teu espírito, eu sei onde recrear o teu espírito,
Noivo, dorme na nossa casa até ao amanhecer,
O teu coração, eu sei como alegrar o teu coração,
Leão, durmamos juntos em nossa casa até ao
amanhecer.
Tu, porque me amas,
Dá-me o favor das tuas carícias,
meu senhor deus, meu senhor protetor,
Meu Shu-Sin que alegra o coração de Enlil,
Dá-me o favor das tuas carícias.
Teu lugar agradável como mel,
por favor estende a tua mão sobre ele,
Traz a tua mão sobre ele como um manto gishban
Cola tua mão como uma taça sobre ele
como um traje gishban-sikin,
poema-sumerio

Numa cerimônia de casamento, há quatro mil anos, uma mulher se declarava ao seu noivo, o rei da Suméria, Shu-Sin. Trata-se do poema de amor mais antigo da humanidade, a tabuleta 2461, que se encontra no Museu de Antiguidades Orientais de Istambul.   Conforme historiadores, aquela noite era possivelmente o primeiro dia do ano. Em Continue Reading