A sete palmos

Por: quinta-feira, outubro 22, 2015 0

casal de esqueletos

 

 

Ele tentou abrir os olhos, mas percebeu que estava todo encoberto de terra. As pálpebras não conseguiam se movimentar debaixo de tanto peso. Girou a cabeça para a esquerda, e notou os ouvidos se encherem de terra. Abriu as mãos e esticou os dedos. Estava vivo. Abriu a boca para gritar, mas sentiu, pela primeira vez, o gosto de raiz molhada, de musgo, folhas e vermes. Engoliu tudo o que não conseguiu pôr para fora e depois prendeu os lábios.

Como ainda estava vivo? Ainda lhe doíam as vértebras quebradas, a dor na consciência, o orgulho ferido – não sabia qual destes ferimentos lhe penalizava mais. Sentiu a pele comida, o sangue seco, a vida que já tinha cessado. Em que tinha se transformado? Teve medo de si mesmo. A língua seca pedia água e o impelia a se levantar. Contudo, lembrou-se de como fora enterrado naquele lugar e sentiu vergonha. Decidiu ficar ali mesmo, deitado, escondido com os vermes.   

Se pudesse gritar, chamaria pelo nome dela. Se pudesse ter uma segunda chance, faria tudo de novo. Repetiria os mesmos erros. Mataria e trairia por ela. E, por ela, segurou firme na raiz molhada e a engoliu aos poucos, até chegar no solo, de onde emergiu como árvore velha e podre, mas ainda viva. Caminhou por algumas horas ao redor do terreno baldio, com os pés esqueléticos e descalços, até encontrar um bando de corvos. Ela está aqui, disseram com os olhos, enterrada a sete palmos.

Os corvos observavam aquelas mãos esverdeadas cavando a terra, agonizando para tocar outras mãos. E quando finalmente se tocaram, veio uma rajada de vento forte e esparramou os corpos dos dois amantes pelo campo, dividindo-os em várias partes feitas de ossos e restos de pele.

Assim ficaram em paz.

 

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