Véspera de Lua

Por: quinta-feira, março 3, 2016 1

Vespera 2

 

Véspera de Lua

Rosângela Vieira Rocha

Editora Penalux

Romance

Edição 2015

142 páginas

Escrito em 1988, “Véspera de Lua” foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura pela Editora UFMG. Como um diário secreto que aos poucos é revelado, o livro se abre para o leitor, apresentando o mundo de Paula, ou de todas as Paulas que existem no mundo. Afinal, qual mulher nunca sentiu um nó na garganta ou jamais teve dúvidas amorosas? Quantas mulheres não sentem seu corpo se transformar, mês a mês, na véspera da menstrução – esse fluxo sanguíneo e psicólogico?

“O corpo parece não caber em si, antes de o fluxo despontar. Vai estourar, é hoje, fica aguardando a desagregação dos membros, desta vez não é menstrução nada, é doença grave. Os braços querem sair dos ombros, a nuca certamente vai partir-se ao meio, não dá mais, Deus, ajude para que seja regra mesmo, e se for outra coisa?”

Se a sociedade ainda encara a menstruação como tema tabu, Rosângela Vieira Rocha conseguiu desvendá-la com muita sensibilidade, retirando o véu de uma das facetas femininas mais escondidas. Ela existe, não é vergonha, não é segredo, não é anormal. Ela existe, às vezes dolorida, em outras confusa, mas sempre está lá, todo mês, deixando a sua marca em todas as mulheres.

Enquanto Paula sente os intensos efeitos do seu ciclo, vive também um romance conflituoso com E. , uma mulher que demanda sua atenção e carinho. A homossexualidade, tema ousado para a época em que o livro foi escrito (e ainda hoje ainda pouco tratado pelos autores contemporâneos), aparece num relacionamento marcado por idas e vindas. Acontece que amar e ser amada nos dias em que o corpo de Paula insiste em desapontá-la com cansaço, insônia e humor variável pode ser muito difícil. Principalmente na véspera de lua, quando todas as dores se intensificam.

lua

“Amanhã é lua nova. Então é por isso?

A menstrução, quase sempre, um dia ante da lua nova.

Ninguém explica por que o ciclo feminino possui quase a mesma duração do ciclo lunar”

“Véspera de lua” não tem paradas para respirar. Tem ritmo de serra. Tem fluxo. Tem fio que percorre nossas veias e nos faz sentir todas as dores de uma mulher.

 

 

1 Comentário
  • Edna Rezende
    3, março, 2016

    Bela resenha, Patrícia Baikal. Ela traduz, de um relance, o que “Véspera de lua” pretende: desvendar o feminino, em sua miséria e glória.

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