A vida em um dia

Por: quinta-feira, julho 16, 2015 0

galo

 

 Quando o canto começava, era hora de os sonhos terminarem. Os pés de Alfredo alcançavam o chão frio e sentiam a vida vir à tona novamente. O grito do galo o acordava todos os dias e parecia estar a dois centímetros do seu ouvido, entre as palhas secas do galinheiro. De uma só vez, empurrado pela necessidade de plantar para comer, saía de casa quando o céu ainda tinha a lua iluminando a estrada quase invisível.

Se havia tanta noite para o dia que começava, não havia tanto dia para colher tudo o que queria. A cada passo que dava, pensava no pão e na fome, e ainda na solidão de todos os anos sem alguém para ajudá-lo a carregar aquele peso. Colocava os sacos nas costas. De trigo e de tudo mais que lhe interassasse no caminho. E se encontrasse algum animal cruzando árvores, ele parava por alguns minutos só para assistir à travessia, escondido atrás de alguma planta, camuflado e em silêncio, comendo uma  fruta. Não mataria nem morreria.

Devagar sob sol ou sob chuva, era preciso seguir, mesmo com os pés machucados com feridas e calos. Quando chegasse no trigal, ficaria por alguns minutos apenas contemplando a paisagem, porque para algum bem devia servir o dom de enxergar sem aguardar nada em troca da natureza. Antes disso porém, tiraria os sacos das costas, todo o peso. Plantaria as sementes e voltaria no dia seguinte e nos outros dias que viriam para ver a plantação crescer. Se esta era sua vida, com descansos tão raros, não era assim sua forma de sonhar, repleta de pausas, até o chamado do galo.

 

Imagem: “O galo”, de Pablo Picasso

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