Zoomorfismo

Por: sexta-feira, julho 8, 2016 0

sofia 30004

 

A mãe vivia dizendo para ela não olhar as pessoas daquele jeito descarado-sem-piscar, É falta de educação, o que vão pensar de você? Mas Sofia não mudava. Arregalava os olhos toda vez que  se sentia vulnerável e insegura quando entrava num lugar desconhecido, ou quando um lugar desconhecido surgia dentro dela, forçando-a a se conhecer novamente. O pescoço também se enrijecia e parecia um torcicolo proposital de gente metida e inflexível, mas. Era apenas a imobilidade causada pelo medo.

Desculpa. A palavra tão certa e direta para quem não conseguia ser outra coisa, a não ser si mesma, feita de matéria ora pulsante demais, ora amorfa demais. Pedia desculpas pelos olhos curiosos, do tamanho das milhares de dúvidas que existiam dentro dela, Por que viver assim, tão na ponta do galho ou em cima do cimento estreito do muro, e se sentir confortável apenas quando se está dentro de um buraco cavado na terra?

Escutava mínimos ruídos a uma longa distância. Audição apurada para correr quando ainda houvesse tempo de se esconder ou de se preparar para quem sabe o quê.  Por isso, tinha insônia e não conseguia dormir enquanto não raiasse o sol, para se certificar de que não houvesse escuridão ou perigo. Se ela tinha olhos atentos, outros conseguiam rastejar e dar o bote silenciosamente. Como predadores.

Sofia-coruja cresceu tão rápido que sua mãe só percebeu quando viu pela primeira vez olhos pequenos na filha. Encolhidos e sem brilho. Não era mais uma menina insegura nem medrosa porque No mundo, não cabem imaturos, Sofia explicou. E seguiu assim até envelhecer, com olhar miúdo e pouco curioso de gente que não tem defeitos.

 

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